
Os Houtis, rebeldes apoiados e financiados pelo Irã, avançaram pelo litoral do Mar Vermelho, nas proximidades do Estreito de Bab el-Mandeb, e passaram a controlar parcialmente as rotas da região. A ofensiva ocorre em meio à intensificação dos confrontos com forças iemenitas apoiadas pela Arábia Saudita e à ampliação, nos últimos dias, dos ataques a estruturas de transporte de commodities.
Os combates contribuíram para a alta do petróleo na semana, com o barril do tipo Brent negociado perto de US$ 107 na sexta-feira. A escalada também agrava as dificuldades dos produtores do Golfo Pérsico, que já enfrentam interrupções na navegação pelo Estreito de Ormuz.
A importância econômica da região está no volume de mercadorias que passa por ela: cerca de 12% do comércio marítimo mundial atravessa o Mar Vermelho, incluindo grande parte das exportações de petróleo e derivados do Golfo para a Europa. Bab el-Mandeb dá acesso ao Canal de Suez, no Egito, que conecta os mares Vermelho e Mediterrâneo.
Muitos navios provenientes da Ásia têm escolhido o caminho pelo Cabo da Boa Esperança, no sul da África. Esse desvio acrescenta aproximadamente 10 a 17 dias à viagem e aumenta significativamente as despesas com combustível, seguros e frete.
O controle do porto de Hodeida e de outros territórios próximos ao estreito já permitia aos Houtis perturbar a navegação e os mercados de petróleo nos últimos anos. A disputa agora envolve também Mokha, cidade portuária do Iêmen situada perto da extremidade sul do Mar Vermelho.
Analistas apontam que os Houtis conquistaram terreno em sua tentativa de dominar Mokha. Alguns especialistas, porém, afirmam que a cidade já foi capturada. A conquista representaria o comando de um segundo porto vital e reforçaria o domínio do grupo sobre essa rota marítima.
Andrew Farrand, diretor para o Oriente Médio e Norte da África da consultoria de risco político Horizon Engage, avalia que o avanço pelo litoral pode entregar aos rebeldes uma área de importância estratégica crucial no ponto mais estreito de Bab el-Mandeb. Para ele, o movimento é surpreendente e constitui um revés de grande dimensão para os esforços sauditas no Iêmen.
Na avaliação de Bjorn Beirens, consultor de segurança da navegação, a tomada de Mokha pode afetar a segurança marítima regional. Ele afirma que a cidade daria ao grupo uma base para avançar mais ao sul, em uma tentativa de alcançar um controle quase total do estreito.
A escalada mais recente teve início em meados de julho, quando os Houtis anunciaram um bloqueio naval aos portos sauditas no Mar Vermelho e começaram a atacar pontos como Jazan e Yanbu.
Yanbu passou a ser o principal ponto de escoamento do petróleo saudita desde que o Irã buscou controlar o Estreito de Ormuz, há mais de seis meses, após o começo do conflito com os Estados Unidos e Israel.

Ao mesmo tempo que avançam por terra no Iêmen, os Houtis mantêm disparos de mísseis e drones contra cidades do sudoeste saudita, com danos a instalações de energia. A Arábia Saudita informou que ataques recentes a diferentes pontos do reino deixaram 73 feridos, entre eles mulheres e crianças.
Os Houtis dizem agir em retaliação a dezenas de incursões apoiadas pelos sauditas em territórios sob seu domínio no noroeste do Iêmen. O grupo também atribui sua reação ao bloqueio imposto por Riad a alguns de seus portos e aeroportos.
O movimento surgiu na década de 1990, depois da unificação do Iêmen do Norte e do Iêmen do Sul, e promoveu sucessivas rebeliões contra o governo. Em 2014, os Houtis tomaram Sanaa, a capital, desencadeando a guerra civil ainda em curso. A partir de 2015, a Arábia Saudita liderou uma campanha militar que não conseguiu retirar os rebeldes do poder.
O príncipe herdeiro saudita, Mohammed Bin Salman, telefonou duas vezes na quinta-feira ao presidente Donald Trump para pedir ataques contra os Houtis. A informação foi divulgada pelo portal Axios, que citou duas autoridades americanas sob condição de anonimato.
Trump rejeitou o pedido e afirmou não ter planos de intervir diretamente contra o grupo naquele momento. Uma autoridade dos Estados Unidos disse, no entanto, que o governo fornecerá a Riad informações de inteligência e dados sobre a localização de alvos.
A ofensiva terrestre dos Houtis traz o risco de aprofundar o envolvimento saudita na guerra e desgastar a relação do país com o Irã, justamente quando a Arábia Saudita tenta mediar uma saída para a crise no Estreito de Ormuz.
Em nota divulgada na sexta-feira por seu Ministério das Relações Exteriores, o Irã afirmou que manter bloqueios e apoio militar não resolverá o conflito no Iêmen.
O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, declarou ter conversado com o chanceler saudita, o príncipe Faisal bin Farhan. Segundo Araghchi, ambos ressaltaram a continuidade da cooperação e da atuação diplomática para impedir que as tensões regionais se ampliem e para restabelecer a estabilidade e a segurança.
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