Carros usados baratos ficam mais escassos nos EUA, com mais idade e quilometragem

Trader Iniciante - RedaçãoTrader Iniciante - RedaçãoMercado Financeiro34 minutos atrás7 Visualizações

Comprar um carro usado de menor preço nos Estados Unidos passou a exigir a aceitação de veículos mais antigos e mais rodados. Segundo a Edmunds, site de pesquisa automotiva, modelos na faixa de US$ 10 mil a US$ 15 mil — aproximadamente R$ 51 mil a R$ 77 mil — têm, em média, quase nove anos de uso e cerca de 158 mil quilômetros. Em 2019, esse orçamento permitia adquirir um automóvel com menos de cinco anos e aproximadamente 93 mil quilômetros.

A perda de poder de compra atinge milhões de consumidores que procuram seminovos. Os preços recordes dos veículos novos chegam posteriormente ao mercado de usados, enquanto a redução dos contratos de leasing diminui a entrada de automóveis pouco rodados nas lojas. Para quem dispõe de menos dinheiro, restam cada vez mais opções envelhecidas, com maior quilometragem e maior possibilidade de precisar de reparos.

A diferença aparece também no preço médio: um carro novo é vendido por US$ 50 mil, cerca de R$ 257 mil. Mesmo com a perda de aproximadamente 40% do valor após três anos, o usado médio custa mais de US$ 30 mil, ou mais de R$ 154 mil. Em 2019, esse preço estava próximo de US$ 20 mil, aproximadamente R$ 103 mil, de acordo com a Edmunds.

O mesmo dinheiro compra menos carro

O engenheiro de processos Benjamin Young, de 48 anos, sentiu essa mudança ao comprar um Toyota 4Runner na Flórida. Morador dos arredores de Jacksonville, ele pagou US$ 30 mil, cerca de R$ 154 mil, pelo SUV com os equipamentos que desejava. O veículo, porém, tem 12 anos e aproximadamente 145 mil quilômetros rodados.

Em 2023, Young havia comprado um Toyota Venza com quilometragem semelhante por metade desse valor. “Definitivamente estou levando menos pelo meu dinheiro”, afirmou.

A alternativa de comprar um modelo novo também pesa no orçamento: um 4Runner novo custa aproximadamente o dobro do valor desembolsado por Young. Até a versão básica de um Honda Civic parte de US$ 25 mil, aproximadamente R$ 129 mil.

Os veículos usados abaixo de US$ 20 mil, cerca de R$ 103 mil, estão mais raros e acumulam quilometragem elevada. Rhett Ricart, dono de várias lojas em Columbus, no estado de Ohio, relata que as concessionárias precisam competir para conseguir esses carros. Ele os compara a ouro: ainda existem, mas sua aquisição exige preços recordes.

Inflação e juros ampliam a pressão sobre o orçamento

A dificuldade de acesso ao automóvel se soma a outros obstáculos ao tradicional sonho americano. A promessa de reduzir os preços foi um dos fatores que levaram os eleitores a reconduzir Donald Trump à Casa Branca. A inflação, entretanto, voltou a ultrapassar 3% — patamar em que estava quando ele tomou posse — desde a entrada do presidente em guerra com o Irã, no fim de fevereiro de 2026, que provocou uma disparada da energia.

Na semana anterior a 19 de setembro, as taxas dos financiamentos imobiliários americanos alcançaram o maior nível em mais de um ano. A confiança do consumidor em setembro também ficou aquém das estimativas.

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Foto: Foto: reprodução

Na semana de 19 de setembro, o Federal Reserve elevou os juros. Investidores apostam em outras altas para combater a inflação, o que tornará o crédito ainda mais caro para consumidores que já lidam com uma transformação estrutural do mercado automotivo.

O desgaste tem uma dimensão política: pesquisas mostram os democratas à frente na disputa para retomar a Câmara dos Representantes nas eleições legislativas de novembro, além de boas chances de assumir o controle do Senado. Os índices de aprovação de Trump continuam baixos.

Preços elevados sustentam os resultados das montadoras

Nas duas décadas que antecederam a pandemia de Covid-19, os carros novos eram mais acessíveis e mais compradores optavam pelo leasing. A disputa entre fabricantes favorecia descontos expressivos, contratos baratos e financiamentos sem juros para estimular as vendas.

Os problemas de abastecimento de peças e outros insumos durante a pandemia prejudicaram as vendas, mas também mostraram às montadoras que uma produção menor, concentrada em veículos mais caros, podia gerar lucros maiores e ser recompensada pelos investidores.

Depois de anos em que suas ações ficaram praticamente estagnadas, General Motors (GM) e Ford Motor voltaram a despertar interesse no mercado, em parte pelos lucros sustentados pelos preços mais altos. Ambas elevaram suas projeções de resultado para 2026.

No balanço do segundo trimestre, a GM ressaltou que seu preço médio de venda chegou a US$ 52 mil por veículo, cerca de R$ 267 mil, com incentivos comerciais menores que os da maioria das concorrentes. A Ford apresentou resultado semelhante e informou que os preços líquidos contribuíram para aumentar o lucro trimestral em US$ 200 milhões, aproximadamente R$ 1,03 bilhão.

A GM prevê começar a vender novas versões das picapes Chevrolet Silverado e GMC Sierra ainda em 2026. Em um evento do Morgan Stanley em setembro, o diretor financeiro da companhia, Paul Jacobson, afirmou a investidores que a disposição dos compradores de pagar mais por modelos redesenhados “significa que existe potencial para elevar preços”.

Essa preferência por margens maiores, em vez de conquistar novos compradores, pode parecer uma expressão de “inflação da ganância”. Diane Swonk, economista-chefe da KPMG, ressalva, porém, que parte do movimento responde a necessidades das empresas.

As tarifas de Trump impuseram custos de bilhões de dólares às montadoras. A guerra com o Irã também encareceu a energia, especialmente o diesel utilizado pelos caminhoneiros que levam peças e veículos pela América do Norte.

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Menos leasing reduz a renovação dos estoques de usados

Além de receber os efeitos dos preços dos carros novos, o mercado de usados perdeu parte do abastecimento proporcionado pelo leasing. Antes da Covid-19, eram firmados contratos para cerca de 4 milhões de veículos por ano nos Estados Unidos. A maioria desses automóveis chegava à revenda depois de três ou quatro anos, garantindo às lojas um fluxo anual de carros pouco rodados.

Em 2026, o setor caminha para fechar 2,5 milhões de contratos. Segundo Ivan Drury, diretor de insights da Edmunds, essa redução poderá limitar a oferta de usados durante um período prolongado.

Drury explica que as montadoras deixaram de oferecer leasing com juros baixos como no passado porque os incentivos ficaram caros demais no ambiente atual de juros. Por isso, preferem vender os veículos. Swonk resume a perda dessa circulação de automóveis: “Simplesmente não temos mais esse giro”.

A competição pelos compradores também é intensa. Ainda assim, encontrar um veículo que corresponda ao orçamento e às preferências pode exigir meses de procura e uma compra longe de casa.

Foi o caso de Amy Hyken, terapeuta familiar infantil de 58 anos que vive no Kansas. Depois de meses pesquisando em sites, ela encontrou um Lexus NX 250 usado, com menos de 80 mil quilômetros, anunciado por US$ 35 mil, cerca de R$ 180 mil. O automóvel estava na Flórida.

Hyken desembolsou US$ 800, aproximadamente R$ 4,1 mil, para transportar o carro até sua residência, perto de Kansas City, e aguardou mais dois meses pela chegada. Como houve atraso na entrega, conseguiu recuperar o valor do frete. Para ela, há menos opções do que antes: além de pagar mais, ficou mais difícil encontrar o modelo desejado.

A compra também pode ser seguida de despesas de manutenção quando o veículo tem quilometragem elevada. Young diz adorar seu 4Runner, mas o SUV apresenta um vazamento de fluido que afeta os amortecedores. Diante da situação, afirmou: “É assim que o mundo funciona agora”. As oficinas cobram milhares de dólares — dezenas de milhares de reais — pelo reparo, e ele discute com a concessionária para que ela assuma o custo.

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