
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) disputarão o segundo turno da eleição presidencial em 25 de outubro de 2026. Na primeira rodada, Flávio recebeu 47,06% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,12%. Independentemente do vencedor, o próximo governo terá de negociar com um Congresso Nacional mais alinhado à direita, eleito em 4 de outubro.
A composição da Câmara e do Senado será determinante para a capacidade de aprovar o programa de governo e enfrentar decisões como uma eventual nova reforma da Previdência. Também estará em jogo o apoio necessário para indicar ministros do Supremo Tribunal Federal e escolher os comandos das duas Casas.
Para a cientista política Lara Mesquita, professora da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EESP) e pesquisadora do Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp), também da FGV, o avanço do PL como principal força não significa uma mudança igualmente intensa no equilíbrio geral do Legislativo. Sua avaliação é que a distribuição de forças deve mudar pouco.
Uma das decisões que dependerão da articulação do próximo presidente envolve a Previdência dos trabalhadores do setor privado. As projeções da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 indicam que o déficit desse regime deve recuar gradualmente a partir de 2,49% do PIB em 2026 até 2030. Depois, a previsão é de crescimento, até atingir 3,79% do PIB em 2050.
Economistas já defendem uma nova reforma, que exigiria alteração da Constituição. Assim, a capacidade de reunir apoio parlamentar terá peso nessa discussão, qualquer que seja o resultado da eleição presidencial.
Lara também aponta experiências em que o governo conseguiu avançar apesar da desvantagem no Congresso: a aprovação da reforma tributária e o debate sobre o fim da escala 6×1. Na avaliação da professora, essas pautas ganharam espaço porque receberam apoio de formadores de opinião e do setor produtivo, fora do Legislativo, aos quais os parlamentares são sensíveis.
O PL já tinha a maior bancada nas duas Casas e ampliou sua representação com a votação de 4 de outubro. Na Câmara, passará de 98 para 121 deputados. O PT tinha 65 deputados e somava 82 na federação com PCdoB e PV; essa representação conjunta cai para 77.
No Senado, o PL passou de 15 para 28 representantes, enquanto o PT manteve seus nove senadores. Das 54 vagas disputadas em 2026, seis eram ocupadas pelo PL, seis pelo PT e 11 pelo PSD, partido de centro liderado por Gilberto Kassab. Entre os 27 senadores com mandato até 2031, nove são do PL e três do PT.
A projeção do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) indicava renovação entre 39% e 43%. Até a noite de 4 de outubro, os dados exatos ainda não haviam sido divulgados.
Segundo Lara, a troca de parlamentares não necessariamente altera a proporção de cadeiras entre esquerda, centro e direita. Mesmo uma renovação de 40% ou 50% dos deputados pode preservar o equilíbrio de forças.
A professora cita duas exceções recentes: em 2002, a bancada do PT cresceu com a primeira eleição de Lula; em 2018, o então PSL ampliou sua representação com a vitória de Jair Bolsonaro.
Se o equilíbrio atual se mantiver, Lara avalia que Flávio terá mais facilidade do que Lula para formar maioria. A razão, segundo ela, é a maior proximidade entre as prioridades de seu partido e as das legendas de centro-direita.
O Ministério da Saúde exemplifica essa diferença. O PP quer comandar a pasta e tem 46 deputados e oito senadores. O partido integra o maior bloco parlamentar da Câmara, com 272 deputados, número superior aos 257 necessários para a maioria absoluta.
De acordo com Lara, o PP defende maior participação do setor privado na saúde, agenda que ficou evidente quando o deputado federal Ricardo Barros foi ministro no governo Michel Temer. Para um governo do PT, entregar a pasta significaria ceder em uma de suas principais bandeiras. Para um governo do PL, o acordo teria menor custo político e poderia incorporar quadros com experiência na área.

A vantagem de Flávio, porém, é condicional. A professora ressalta que ele precisaria evitar a estratégia adotada no começo do governo de seu pai, Jair Bolsonaro, que passou os dois primeiros anos sem uma base formal e acumulou derrotas no Congresso. Na avaliação dela, aprender com essa experiência significaria reconhecer a necessidade de construir uma coalizão com outros partidos.
No caso de Lula, Lara considera que um eventual quarto mandato incluiria a divisão do governo com outras legendas, mas preservaria ministérios ligados à identidade do PT, como Saúde, Educação, Desenvolvimento Social e Fazenda. Nos mandatos anteriores, partidos do Centrão entraram na base sem assumir essas pastas.
Esse arranjo tem resultado em um governo sem maioria estável. Para a cientista política, isso não impede a atuação do Executivo, mas exige selecionar melhor as disputas e limita o avanço das propostas em relação ao que o governo gostaria de realizar.
O próximo presidente poderá indicar até três dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). As vagas são a de Luís Roberto Barroso, caso não seja preenchida até o fim de 2026, a de Luiz Fux, em 2028, e a de Cármen Lúcia, em 2029.
Cada indicação precisa receber pelo menos 41 votos no Senado. A rejeição do nome de Jorge Messias é citada como uma derrota do governo e como sinal de que a aprovação deixou de ser automática. Há, porém, duas referências distintas à data desse episódio: abril, na descrição das derrotas do Executivo, e agosto, na discussão sobre as indicações ao tribunal. Nesta última, a rejeição é apresentada como a primeira em mais de um século.
Dos dez ministros que compõem o STF, seis foram indicados por governos do PT e dois por Jair Bolsonaro. As próximas nomeações podem reforçar ou alterar esse equilíbrio.
O presidente do Senado também decide se coloca em pauta pedidos de impeachment de ministros do Supremo. O pedido contra Alexandre de Moraes está entre as bandeiras do PL na campanha.
Na avaliação de Lara, a crise de credibilidade do tribunal, agravada pelas suspeitas envolvendo ministros e pelo caso Banco Master, deve levar ao Congresso a discussão de uma reforma do Judiciário, independentemente de quem vencer a eleição presidencial.
A escolha dos presidentes da Câmara e do Senado está marcada para 1º de fevereiro de 2027. Lara considera essa votação a primeira medida de força do novo governo e prevê que a articulação comece já na semana de definição das bancadas, enquanto Lula e Flávio ainda disputam o segundo turno.
No Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que preside a Casa desde 2025, pode tentar a recondução porque a próxima eleição inaugura uma nova legislatura. Ele busca o apoio do governo para permanecer no cargo.
Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição e coordenador da campanha de Flávio, também declarou interesse na presidência do Senado.
Para Lara, a escolha produziria cenários distintos: se Lula vencer e Marinho comandar o Senado, o governo terá um adversário à frente da pauta, diferentemente da permanência de Alcolumbre ou da eleição de outro senador do Centrão mais aberto à negociação. Se Flávio vencer, Marinho representaria um aliado nesse posto.
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