Estar no poder virou desvantagem nas eleições de 2026, avalia Walter Russell Mead

Trader Iniciante - RedaçãoTrader Iniciante - RedaçãoMercado Financeiro22 minutos atrás7 Visualizações

A permanência no governo se tornou uma desvantagem política nas eleições de 2026, avalia Walter Russell Mead, colunista do The Wall Street Journal. Em sua análise, o desgaste de líderes no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa está associado à dificuldade de responder a problemas que inquietam os eleitores, entre eles inflação, mudanças no emprego e pressões sobre os sistemas de previdência e proteção social.

O argumento não se limita à perda de popularidade de um partido ou de uma corrente ideológica. Mead vê um ambiente em que candidatos ganham apoio ao prometer romper com o sistema, mas passam a enfrentar rejeição quando assumem o comando e precisam transformar discursos em políticas públicas.

Brasil, Estados Unidos e Europa mostram o desgaste dos governantes

No Brasil, Mead considera improvável que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva obtenha um inédito quarto mandato. Sua avaliação leva em conta o fato de Lula não ter terminado à frente no primeiro turno, contrariando as expectativas. O colunista descreve Flávio Bolsonaro como bem posicionado para chegar ao poder, favorecido pela insatisfação com o governo Lula. Flávio é o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pela Justiça.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump se aproxima de novos recordes de impopularidade nas pesquisas, enquanto os republicanos se preparam para uma disputa difícil nas eleições legislativas de meio de mandato. Ainda assim, sua aprovação, em torno de 35%, supera os índices apresentados para alguns dirigentes europeus.

Na França, o presidente Emmanuel Macron registra aprovação entre aproximadamente 15% e pouco menos de 20%, em meio à disseminação de tumultos e à pressão de investidores do mercado de títulos que eleva os juros da dívida francesa. Na Alemanha, ao menos uma pesquisa recente indica que apenas 10% dos alemães estão satisfeitos com o desempenho do chanceler Friedrich Merz.

O quadro descrito por Mead também inclui mudanças de governo e antecipação de eleições. O ex-primeiro-ministro britânico Keir Starmer deixou o cargo pouco mais de dois anos após a vitória esmagadora de julho de 2024. Na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez convocou eleições antecipadas depois de sofrer uma derrota expressiva em sua agenda emergencial de proteção aos direitos dos inquilinos.

Para o colunista, Trump e a família Bolsonaro souberam aproveitar a rejeição aos políticos tradicionais. Trump conquistou eleitores com uma imagem carismática de candidato de fora do sistema, prometendo enfrentar os vícios da política, mas perdeu quando disputou a reeleição. Agora, novamente à frente do sistema que prometia mudar, enfrenta perda de apoio.

Inflação, emprego e previdência estão entre as pressões citadas

Mead sustenta que parte das dificuldades dos governos decorre de questões complexas, algumas possivelmente impossíveis de resolver. Uma delas é a velocidade da expansão da inteligência artificial: seus possíveis efeitos sobre emprego, distribuição de renda e segurança nacional avançariam rápido demais para que os governos elaborassem políticas eficazes de resposta.

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Outro desafio econômico citado é o chamado Choque Chinês 2.0. A expressão descreve a reação de Pequim à grande produção excedente e à estagnação econômica interna por meio do aumento das exportações. Na avaliação do colunista, esse movimento ameaça empregos em todos os continentes.

A transformação demográfica, por sua vez, teria tornado insustentáveis os sistemas de previdência e proteção social de muitos países. Mead também aponta que a guerra no Irã elevou os preços da energia mundialmente, alimentando a inflação mesmo diante da forte alta dos juros.

As pressões econômicas se somam a conflitos políticos e de segurança. A retomada da competição entre grandes potências exige escolhas impopulares de governos que procuram equilibrar bem-estar social e defesa nacional. Décadas de imigração em massa alteraram a política e intensificaram disputas culturais em muitos países, enquanto o terrorismo islamista permanece como problema.

Nesse ambiente, segundo Mead, as redes sociais ampliam a apreensão, aprofundam a polarização e mobilizam sociedades já agitadas, à medida que os eleitores se tornam mais irritados e temerosos.

Promessas populares podem resultar em políticas rejeitadas

O colunista caracteriza o período como uma transformação revolucionária, e não uma mudança gradual. Em sua interpretação, isso reduz o espaço para dirigentes técnicos, pragmáticos e moderados e favorece figuras carismáticas, inclusive demagogos. A dificuldade material dos eleitores, argumenta, aumenta o espaço para o espetáculo político.

Trump ocupa esse espaço entre os republicanos há uma década, enquanto uma nova geração de democratas carismáticos tenta ganhar projeção. Mead prevê a possibilidade de uma política mais centrada em personalidades, tanto à esquerda quanto à direita, nos Estados Unidos e em outros países.

O problema, ressalta, é que mensagens bem recebidas durante campanhas podem se converter em medidas impopulares no governo. O protecionismo, especialmente quando combinado com gastos sem disciplina, pode alimentar a inflação. Uma postura de firmeza na defesa nacional pode levar a guerras rejeitadas pelo eleitorado.

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Da mesma forma, uma ofensiva contra a imigração inicialmente apoiada pela população pode produzir episódios chocantes de brutalidade e abuso, afastando parcelas importantes dos eleitores. Mead prevê que novos populistas contrários aos governantes usarão as redes sociais e a indignação política para mobilizar apoiadores e tentar derrotá-los nas eleições seguintes.

Se os Estados Unidos e outros países passarem a alternar ondas de populismo de direita e de esquerda, o resultado, em sua avaliação, será mais próximo de uma turbulência permanente do que de uma administração estável. Com o tempo, esse processo teria maior probabilidade de destruir as estruturas institucionais e jurídicas que sustentam a democracia do que de resolver os problemas que preocupam os eleitores.

A alternância pacífica como contraponto ao risco de turbulência

Apesar do alerta, Mead encontra na história dos Estados Unidos uma razão para não considerar inevitável esse percurso. Ele argumenta que, ao longo de 250 anos de conflitos políticos, turbulências econômicas e mudanças sociais, o bom senso do eleitor comum manteve o país em uma trajetória razoavelmente estável e democrática.

O colunista cita George Washington, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt, Franklin Roosevelt e Ronald Reagan como presidentes que recorreram a essa reserva de bom senso para conduzir o país em momentos difíceis.

Mead ocupa o posto de pesquisador Ravenel B. Curry III em Estratégia e Política de Estado no Instituto Hudson, assina a coluna Global View no The Wall Street Journal e é titular da cátedra Alexander Hamilton de Estratégia e Política de Estado na Escola Hamilton de Educação Clássica e Cívica da Universidade da Flórida. Fundado em 1889, o jornal é um dos tradicionais veículos de negócios, finanças e economia dos Estados Unidos e do mundo, com reputação ligada à independência, a furos jornalísticos e a reportagens exclusivas que anteciparam tendências.

Na conclusão de sua análise, Mead considera que a possibilidade de retirar maus governantes do poder é uma qualidade do sistema democrático, mesmo quando a substituição também produz dirigentes ruins temporariamente. Para ele, a mudança pacífica em resposta à vontade popular continua sendo o melhor mecanismo encontrado para atravessar as convulsões sociais e tecnológicas.

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