
O Banco Central manteve a Selic em 13,75% ao ano na quarta-feira, 4 de novembro de 2026, interrompendo uma sequência de cinco reduções consecutivas. A decisão unânime do Copom era esperada pelo mercado e foi vista como uma sinalização de independência, em meio à piora das expectativas de inflação e ao debate sobre o nível dos juros.
O ciclo de cortes havia começado em março, quando a taxa básica estava em 15% ao ano. Até setembro, na última reunião antes das eleições, o Banco Central havia realizado cinco reduções de 0,25 ponto percentual cada.
Para justificar a manutenção, o comitê destacou o prolongamento dos conflitos no Oriente Médio, que pressiona o petróleo, a aceleração da inflação para além do teto da meta e o afastamento das expectativas em relação ao objetivo de inflação.
O comunicado descreveu uma combinação de juros em nível fortemente restritivo, aumento expressivo das incertezas sobre o cenário considerado pelo comitê, expectativas de inflação mais altas e desaceleração mais acentuada da atividade econômica brasileira. Diante desse quadro, o Copom afirmou que a condução da política monetária exige serenidade e cautela.
O comitê também declarou que manter a Selic nesse patamar é compatível com sua estratégia de levar a inflação para perto da meta ao longo do período relevante para suas decisões.
Esse horizonte corresponde ao segundo trimestre de 2028, para o qual a projeção de inflação do Copom subiu para 3,5%. As estimativas para o IPCA também foram elevadas nos dois anos anteriores:
A deterioração das expectativas apareceu também no boletim Focus mais recente, levantamento do Banco Central que reúne projeções de instituições financeiras para juros, câmbio, PIB e inflação. A mediana das estimativas para o IPCA de 2027 aumentou de 4,34% para 4,76%.

Para a Selic no encerramento de 2027, a expectativa do mercado passou a ser de 12,50% ao ano. Antes do segundo turno das eleições, a projeção era de 11,75%.
A penúltima reunião do Copom em 2026 ocorreu com o caráter restritivo dos juros no centro da discussão. Algumas lideranças do Partido dos Trabalhadores (PT) passaram a apoiar a tese do economista André Lara Resende de que o crescimento da dívida bruta decorre principalmente do custo elevado de financiamento do governo.
A possibilidade de o governo considerar essa proposta levou o mercado a incorporar riscos maiores aos preços de diferentes classes de ativos. Os juros de longo prazo, que já haviam devolvido os ganhos após o segundo turno, intensificaram a alta.
O dólar também disparou, ampliando a pressão sobre o Copom. A alta da moeda americana pressiona os preços dos produtos importados e faz o mercado projetar mais inflação à frente.
Em relatório assinado por Alberto Ramos, chefe de pesquisa macroeconômica para a América Latina, o Goldman Sachs avaliou que as perspectivas de inflação pioraram e que o real se desvalorizou em um ambiente de forte oscilação nos preços dos ativos.
Na avaliação do banco, os anúncios de novos gastos e os compromissos fiscais assumidos durante a campanha presidencial deterioraram a base orçamentária. O relatório também apontou enfraquecimento das perspectivas de uma âncora fiscal crível no curto prazo.
Para Gustavo Assis, CEO da Asset, o problema não se limita à política monetária. Ele afirmou que, sem um ajuste estrutural das contas públicas, o Banco Central poderá precisar manter os juros elevados por mais tempo para compensar os riscos de inflação e o afastamento das expectativas em relação à meta.

“Não é sustentável exigir que apenas os juros controlem os desequilíbrios econômicos”, disse Assis.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, avalia que o Banco Central demonstra pouca disposição para antecipar novos cortes enquanto o mercado exigir prêmios de risco mais elevados. Para ele, a questão central não é somente o patamar dos juros, mas a dificuldade de reduzi-los de forma sustentável.
Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset, considera uma nova manutenção em dezembro o cenário mais provável, a menos que as expectativas e o câmbio apresentem uma melhora mais clara. Ele ressalva, porém, que a interrupção das reduções não representa necessariamente o encerramento do ciclo de cortes.
Piran projeta a Selic próxima de 12,5% ao ano e o IPCA em torno de 4,8% no fim de 2027, estimativas que considera alinhadas ao Focus.
A próxima reunião do Copom está marcada para 8 e 9 de dezembro e será a última de 2026.
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