O Brasil alcançou em 2024 a posição de terceiro maior mercado mundial de beleza e cuidados pessoais, movimentando US$ 37,4 bilhões em vendas, segundo levantamento da Euromonitor. O volume ajuda a explicar por que a estética continua a funcionar como filtro de acesso a oportunidades profissionais.
Em 2023, os pesquisadores Catarina Goulão, Juan Antonio Lacomba, Francisco Lagos e Dan-Olof Rooth enviaram 3.155 currículos fictícios para 12 ocupações na Espanha, mantendo iguais escolaridade e experiência e alterando apenas fotografias editadas digitalmente. Homens cuja imagem sugeria sobrepeso receberam 26% menos convites para entrevista; nas áreas em que predominam mulheres, a queda chegou a 46%.
Entre candidatas do sexo feminino, houve penalização em setores dominados por homens, enquanto alguns segmentos de maioria feminina registraram mais respostas para perfis considerados fora do padrão estético.
Na China, Weiguang Deng, Dayang Li e Dong Zhou encaminharam 4.946 pares de currículos idênticos para vagas no setor financeiro em cinco grandes cidades, variando apenas a atratividade facial. Profissionais avaliados como mais bonitos receberam convites para entrevista 5,6 pontos percentuais acima dos candidatos de aparência mediana.
O bônus da beleza foi maior em metrópoles, empresas listadas em bolsa e posições de maior remuneração. Escolaridade superior atenuou parte do viés para homens, mas não para mulheres, indicando que credenciais acadêmicas não eliminam julgamentos visuais.
Os resultados reforçam o chamado “efeito auréola”, atalho cognitivo que associa atributos físicos a competência ou confiabilidade. Em contexto de pouco tempo e excesso de informação, a aparência torna-se parâmetro decisivo e estimula investimentos individuais em produtos e procedimentos estéticos.
Imagem: redir.folha.com.br
Esse cenário adiciona desigualdade: pessoas com maior renda conseguem acessar tratamentos, cosméticos e serviços alinhados aos padrões valorizados. No Brasil, onde estética se cruza com fatores raciais e de classe, a tendência é reproduzir hierarquias sociais.
Nem sempre os custos dos cuidados entram na conta. Durante anos, alisamentos capilares com formol ou ácido glioxílico, depois proibidos por riscos à saúde, foram largamente utilizados em nome da adequação estética.
Embora haja avanço na valorização da diversidade visual, as evidências mostram que a vantagem atribuída à atratividade permanece, especialmente em mercados mais competitivos. Compreender esses vieses é apontado por especialistas como passo necessário para decisões de carreira e consumo mais conscientes.