Uma operação de US$ 3,3 milhões no Polymarket, plataforma de mercados de previsão, pagou retorno anualizado de 5,5% para quem apostou que Jesus Cristo não voltaria à Terra em 2025 — rendimento superior ao oferecido pelos títulos do Tesouro dos Estados Unidos no mesmo período.
O contrato “Jesus Cristo retornará em 2025?” atraiu o interesse de milhares de apostadores ao longo do ano. Embora a maioria tenha escolhido o “Não”, a probabilidade de vitória do “Sim” permaneceu acima de 3% durante grande parte do segundo trimestre, reflexo da crença de uma parcela dos participantes.
Criado no início de 2025, o mercado previa que o site declararia vencedor quem acertasse o evento até 31 de dezembro. O regulamento afirmava que a resolução ocorreria por “consenso de fontes confiáveis”. Em 1º de janeiro de 2026, a plataforma confirmou o resultado negativo e liberou os pagamentos.
A valorização obtida por quem entrou no “Não” em abril — fase de maior especulação — superou a remuneração dos papéis de dez anos do governo norte-americano, referência de investimento livre de risco.
Nas redes sociais, a iniciativa gerou debate. Um usuário sugeriu que o contrato poderia ser usado para sonegação fiscal; outro classificou a aposta como “o mercado mais idiota” que já vira. Para a professora associada de direito Melinda Roth, da Washington and Lee School of Law, esse tipo de mercado “distração” reduz a credibilidade de previsões que oferecem informações úteis.
A Polymarket não respondeu aos pedidos de comentário sobre a controvérsia.
Imagem: redir.folha.com.br
Além do tema religioso, a plataforma e sua concorrente Kalshi listam contratos sobre bilheteria de filmes, frequência de publicações de Elon Musk e até a possibilidade de Jeffrey Epstein aparecer vivo. Para John Holden, professor associado da Kelley School of Business da Universidade de Indiana, a atração por probabilidades ínfimas é comparável ao interesse por bilhetes de loteria.
Encerrado o mercado de 2025, o Polymarket abriu nova aposta sobre a volta de Jesus até 31 de dezembro de 2026. No momento, o “Sim” é precificado em 2%, o que implicaria ganho superior a 5.700% caso o evento se confirmasse.
Historiadores lembram que a tentativa de calcular a segunda vinda do Messias é antiga. No século 17, o matemático Blaise Pascal usou a teoria das probabilidades para justificar a fé, no argumento conhecido como “Aposta de Pascal”.