Os bombardeios a instalações de petróleo e gás no Oriente Médio inauguraram uma nova fase do conflito que envolve Estados Unidos, Israel e Irã, com potencial para desencadear impactos econômicos por anos, segundo autoridades e especialistas.
Em 18 de março, o Irã disparou mísseis contra Ras Laffan, no Catar, responsável por cerca de 20% da produção global de gás natural liquefeito (GNL). No dia seguinte, refinarias e unidades de gás no Kuwait, Catar e Arábia Saudita também foram atacadas, em resposta a uma ofensiva israelense sobre o campo de Pars Sul, no território iraniano.
O ministro da Energia catariano, Saad Sherida al-Kaabi, afirmou que os reparos em Ras Laffan podem levar até cinco anos e reduzir a capacidade de exportação do país em 17% nesse período.
Jason Miller, professor da Universidade Estadual de Michigan, classificou a paralisação como “a maior interrupção de petróleo bruto e produtos refinados da história”. A consultoria Wood Mackenzie calcula que o barril possa chegar a US$ 200 em 2026, ante US$ 73 antes da guerra.
Preços mais altos tendem a frear o crescimento, elevar o desemprego e pressionar a inflação. Diesel e combustível de aviação, processados de forma distinta da gasolina, costumam subir mais rapidamente, encarecendo o transporte global de mercadorias.
Milhares de embarcações permanecem retidas no golfo Pérsico. Companhias como Maersk e CMA CGM avisaram que podem descarregar contêineres no porto disponível mais próximo, transferindo custos adicionais aos clientes.
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Com poucas plantas de GNL no mundo, a paralisação da maior unidade catariana afeta também a oferta de fertilizantes e hélio, subproduto essencial para a fabricação de chips.
Para Jan-Eric Fahnrich, analista da Rystad Energy, a percepção de segurança da infraestrutura do Golfo foi abalada. “Os compradores vão precificar esse risco por mais tempo do que a própria interrupção”, escreveu.
Governos têm recorrido a cortes ou suspensão de tributos sobre combustíveis (Áustria, Brasil, Itália, Portugal e Turquia) e a limites de preços (França, Hungria, Japão, Coreia do Sul, México e Tailândia). O Bangladesh fechou universidades; o Paquistão interrompeu aulas por duas semanas; o Sri Lanka raciona combustível e decretou feriado às quartas-feiras.
Embora boa parte das instalações do Golfo continue intacta, especialistas alertam que novos ataques podem agravar o cenário. “Se o estreito de Hormuz reabrisse amanhã, a maioria das operações poderia retomar em alguns meses”, disse Jason Bordoff, da Universidade Columbia. Ele ressalvou, porém, que a situação permanece volátil e pode se deteriorar rapidamente.