O auditor fiscal Fernando Alves dos Santos, da Secretaria da Fazenda de São Paulo (Sefaz-SP), foi preso na manhã desta quinta-feira, 26 de março, após se recusar a entregar as senhas de suas carteiras de criptomoedas durante a Operação Fisco Paralelo. A ação investiga um esquema bilionário de liberação irregular de créditos de ICMS dentro do órgão.
De acordo com o Ministério Público de São Paulo, a negativa foi interpretada como tentativa de ocultar provas, levando o juiz Paulo Fernando Deroma De Mello a decretar a prisão preventiva por obstrução de Justiça. Na decisão, o magistrado afirmou que a conduta equivale à destruição de evidências, já que valores em blockchain podem ser transferidos rapidamente.
A defesa de Santos não foi localizada até o fechamento desta edição. A reportagem entrou em contato com um advogado do auditor, mas não obteve retorno para confirmar a representação no caso.
A Operação Fisco Paralelo é um desdobramento da Operação Ícaro, que em 2025 levou à prisão o empresário Sidney Oliveira, dono da Ultrafarma, e um diretor estatutário da Fast Shop. Segundo os investigadores, o novo núcleo criminoso atuou entre 2021 e 2025 e teria movimentado mais de R$ 1 bilhão em propinas.
Santos é apontado como responsável por elaborar documentos e despachos que permitiam o reconhecimento irregular de créditos tributários, além de orientar outros fiscais a seguir o mesmo padrão para acelerar processos. Em uma das fraudes, ele teria alterado o cadastro de uma empresa para assumir a tramitação do procedimento dentro da Sefaz-SP.
As apurações indicam ainda que o auditor funcionava como elo entre fiscais e consultorias que atendiam grandes companhias, entre elas Carrefour, Kalunga, Casas Bahia, Caoa e Center Castilho.
Em maio de 2024, Santos enviou por WhatsApp o link de uma geladeira anunciada na Fast Shop ao auditor Artur Gomes da Silva Neto, apontado como principal operador do esquema. Três dias depois, confirmou o recebimento do eletrodoméstico por meio de aplicativo criptografado. Para o Ministério Público, o item fazia parte do pagamento de propina.
Silva Neto, então supervisor fiscal da Diretoria de Fiscalização (Difis), é acusado de idealizar a estrutura de liberação irregular dos créditos. Executivos da Fast Shop — Milton Kazuyuki Kakumoto, Júlio Atsushi Kakumoto e Mario Otávio Gomes — firmaram acordos de não persecução penal, admitiram a participação e se comprometeram a devolver R$ 100 milhões aos cofres públicos.
Imagem: redir.folha.com.br
A Justiça autorizou buscas em um endereço ligado a Santos, em Moema, zona sul da capital paulista, além do sequestro de criptomoedas mantidas por ele. A operação mira um total de 19 fiscais — 15 em atividade e quatro aposentados — lotados em delegacias regionais tributárias e na Difis.
Para o juiz, há fortes indícios dos crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, lavagem de capitais e delitos conexos.
Em nota, a Sefaz-SP informou que colabora com o Ministério Público desde a deflagração da Operação Ícaro, em agosto de 2025. O órgão relata a existência de 49 procedimentos administrativos internos, que podem resultar em sanções e demissões. Silva Neto já foi exonerado, e outros 20 servidores estão afastados.
Subordinada ao governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) e comandada pelo secretário Samuel Kinoshita, a pasta afirmou que equipes internas e da Polícia Militar acompanharam o Grupo Especial de Repressão a Delitos Econômicos (Gedec) na operação desta quinta-feira.
O Grupo Carrefour Brasil declarou ter aberto investigação interna e se colocou à disposição das autoridades. O Grupo Casas Bahia informou não ter sido notificado, mas disse que colaborará caso seja solicitado. Kalunga e Caoa não responderam aos contatos da reportagem, e representantes da Center Castilho não foram encontrados. A defesa de Silva Neto também não se manifestou.