A necessidade de financiamento do setor público (NFSP) passou de 4,5% do PIB em 2022 para 5,7% ao fim de 2024 e chegou a 8,2% até setembro de 2025, segundo dados oficiais. O avanço do déficit nominal, que inclui os gastos com juros, tem levado economistas e agentes de mercado a dar menos importância ao arcabouço fiscal instituído no início do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ao contrário do arcabouço, que desconsidera despesas de juros e autoriza exceções bilionárias, a NFSP mostra o total do desequilíbrio das contas públicas. Os resultados negativos engrossam a dívida bruta, que desde janeiro de 2023 subiu quase seis pontos percentuais e se aproxima de R$ 10 trilhões; projeções indicam elevação de quase nove pontos até o fim do terceiro mandato de Lula.
O Ministério da Fazenda atribui o salto recente dos gastos sobretudo às despesas líquidas com juros, e não ao resultado primário, foco central do arcabouço. A pasta afirma que a tendência deve melhorar quando o Banco Central começar a cortar a Selic, hoje em 15% ao ano. “A dinâmica do novo arcabouço levará naturalmente a resultados primários melhores, com a despesa crescendo menos que a receita”, diz o órgão.
Em 2023 e 2024, o governo registrou déficits primários de R$ 228,4 bilhões e R$ 11 bilhões, respectivamente. Entre as exceções permitidas pela regra fiscal, estão R$ 32 bilhões destinados em 2024 ao enfrentamento das enchentes no Rio Grande do Sul, valor que não entrou no cálculo do arcabouço, mas aumentou a dívida.
Para Alexandre Manoel, ex-secretário da Fazenda e sócio da Global Intelligence and Analytics, diversos indicadores mostram deterioração fiscal apesar do aumento da arrecadação, que pode alcançar 19% do PIB em 2026. Ele aponta a reversão de políticas de salário mínimo, saúde e educação para padrões anteriores, além da retirada de gastos do Orçamento e da ampliação de créditos subsidiados.
As despesas federais subiram de 18% do PIB no fim de 2022 para 18,8% em 2024 e devem permanecer nesse nível em 2025. Segundo cálculos do economista Marcos Mendes, do Insper, os repasses do Tesouro para bancos públicos usados como funding de empréstimos direcionados saltaram de R$ 66 bilhões em 2022 (valores de 2025) para R$ 124 bilhões neste ano.
O desempenho das estatais também pressiona o quadro fiscal: o lucro líquido conjunto caiu de R$ 275 bilhões em 2022 para R$ 116 bilhões em 2024. Os Correios projetam prejuízo de R$ 10 bilhões em 2025.
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Marcus Pestana, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, afirma que técnicos deixaram de usar o arcabouço como referência. “Ele deveria disciplinar o gasto e ancorar expectativas, mas temos aumento de despesa, piora fiscal e pouco espaço para cortar juros”, avalia. O IPCA-15 acumula 4,5% em 12 meses, mantendo o Banco Central cauteloso diante da meta de inflação de 3%.
Pestana considera que, embora seja preferível ter uma regra a não ter nenhuma, a exclusão recorrente de despesas mina a credibilidade do mecanismo. “Gasto é gasto; não adianta ficar excluindo despesas para cumprir a regra”, diz.
Ricardo Summa, professor do Instituto de Economia da UFRJ, sustenta que boa parte do déficit nominal decorre do custo de rolagem da dívida, tendência que pode aliviar com a queda dos juros. Para ele, cortes drásticos de gasto deprimiriam a atividade e poderiam elevar a razão dívida/PIB; a alternativa, diz, seria reforçar a arrecadação.
A Fazenda afirma que o “esforço fiscal em curso” deve continuar e projeta resultado primário zerado em 2025, superávit de 0,25% do PIB em 2026 e avanço até 1,25% em 2029. Com isso, a pasta espera que a dívida bruta atinja um pico de 84,2% do PIB em 2028 e recue para 81,6% em 2035.