O segmento de crédito para médias e grandes companhias no Brasil ganhou novos protagonistas. Gestoras independentes e DTVMs regionais, conhecidas como boutiques de crédito, têm ampliado sua atuação ao estruturar operações por meio de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e suprir a retração dos grandes bancos em nichos específicos.
A Azumi Investimentos, comandada por Edgar Araújo, administra 77 FIDCs voltados a médias e grandes empresas e soma aproximadamente R$ 3 bilhões em patrimônio. Araújo afirma que as instituições tradicionais preferem produtos padronizados, pouco aderentes às necessidades do chamado middle market, abrindo caminho para soluções customizadas ofertadas pelas boutiques.
Outro player, o Grupo IOX, dirigido por Richard Ionescu, também mantém carteira próxima de R$ 3 bilhões. Para o executivo, o trabalho minucioso exigido para atender empresas de médio porte desestimula os grandes bancos, que passaram inclusive a investir em cotas de FIDCs, em vez de conceder o crédito diretamente.
Na região Centro-Oeste, a goiana Audax Capital se concentra em indústria e agronegócio. O CEO Pedro Da Matta destaca a proximidade com o cliente como diferencial competitivo, reforçado por soluções tecnológicas que permitem produtos cada vez mais segmentados.
O Indicador de Condições de Crédito a MPMEs, calculado pela Serasa Experian, marcou -0,18 ponto no segundo semestre de 2025. Apesar do avanço nominal do volume liberado, o índice mostra que pequenas e médias empresas enfrentam custos maiores, prazos mais longos de aprovação e limites inferiores em comparação aos grandes tomadores.
A combinação de uma Selic elevada e o recuo das instituições tradicionais no agronegócio e no setor imobiliário aumenta a atratividade do crédito privado para investidores, ao mesmo tempo que alimenta a demanda das empresas por fontes alternativas de recursos.
Executivos apontam a falta de governança e a desorganização financeira das companhias de médio porte como principal obstáculo. “O middle não tem balanço auditado e mistura caixa pessoa física com jurídica”, relata Da Matta. Na Audax, prazos costumam ser limitados a 36 meses e a análise de risco prioriza histórico de pagamento e cruzamento de dados de mercado.
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Ionescu acrescenta que, em muitos casos, a IOX indica consultores de reestruturação antes de liberar recursos. Já Araújo ressalta a barreira educacional: compreender a estrutura de mercado de capitais leva tempo para empresários acostumados a produtos bancários tradicionais.
Para ampliar alcance e minimizar a concorrência concentrada entre Rio de Janeiro e São Paulo, as boutiques investem em capilaridade regional. O Grupo IOX expandiu do centro da capital paulista para cidades do interior, Espírito Santo e demais estados, contando hoje com equipes comerciais distribuídas pelo país. Da Matta considera a posição fora da Faria Lima uma vantagem, pois reduz a rotatividade de profissionais e aproxima a Audax de seu público-alvo.
Sobre o futuro do setor, Da Matta projeta movimentação de fusões e aquisições quando a Selic recuar de forma mais expressiva, estimulando grandes players a comprar casas especializadas para incorporar equipes e carteiras. Ionescu discorda e prevê manutenção da pulverização, embora admita que gestoras com ofertas muito semelhantes podem não resistir a processo de consolidação.
Araújo, por sua vez, aposta em aproveitar o atual “período de ouro” antes da reação dos bancos de varejo. “A concorrência cresce entre iguais”, diz, destacando que o tempo necessário para que as instituições de maior porte se reorganizem permite às boutiques escalar operações e fortalecer presença no middle market.