Um caminhão-tanque retido pela Polícia Rodoviária Federal em 14 de maio de 2023, na rodovia Presidente Dutra, em Guarulhos (SP), serviu de ponto de partida para a Operação Carbono Oculto, deflagrada em 28 de agosto de 2025 para combater a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) nos setores de combustíveis e financeiro.
O veículo transportava metanol—produto inflamável, tóxico e com características de combustível—sem a documentação adequada. A carga havia saído do porto de Paranaguá (PR) e deveria seguir para o Mato Grosso, fato que não justificava sua presença na região metropolitana de São Paulo.
Ao analisar os documentos de transporte, a Polícia Federal detectou irregularidades que levaram à quebra de sigilo telefônico dos suspeitos. As interceptações revelaram um esquema de desvio sistemático de metanol para adulterar combustíveis em postos de gasolina. Um carregamento oficialmente destinado a uma usina em Primavera do Leste (MT) foi localizado em um posto no bairro do Bixiga, centro da capital paulista.
Laudo da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens de São Paulo aponta que, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o limite de metanol autorizado na gasolina é de 0,5%. A investigação encontrou postos com até 50% de metanol na composição, gerando, de acordo com a PF, “faturamento milionário” para o grupo criminoso. A corporação estima o desvio de mais de 10 milhões de litros da substância.
Pagamentos entre os envolvidos eram quase sempre realizados por meio da BK Instituição de Pagamento, ou BK Bank, que funcionaria como banco paralelo do PCC. A Receita Federal calcula que a fintech movimentou R$ 46 bilhões não rastreáveis entre 2020 e 2024. A Polícia Federal, por sua vez, identificou R$ 68,9 milhões circulando nas contas da BK Bank entre janeiro de 2020 e agosto de 2025.
Os responsáveis pelo BK Bank não foram localizados até a publicação desta reportagem.
O Ministério Público de São Paulo constatou semelhanças entre três inquéritos que apuravam núcleos distintos do mesmo esquema. A partir dessa conexão, os promotores unificaram esforços e ampliaram a investigação que culminou na operação desta quinta-feira.
Imagem: redir.folha.com.br
A Carbono Oculto mobilizou 1.400 agentes que cumpriram mandados de busca, apreensão e prisão contra mais de 350 pessoas físicas e jurídicas suspeitas de crimes contra a ordem econômica, adulteração de combustíveis, crimes ambientais, lavagem de dinheiro, fraude fiscal e estelionato. As ações ocorreram em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina.
Segundo as autoridades, o PCC controla etapas que vão do transporte marítimo e armazenamento de metanol, nafta, gasolina, diesel e etanol, passando pelo refino e distribuição, até a operação de postos de abastecimento e lojas de conveniência.
Em entrevista coletiva, o promotor João Paulo Gabriel, do Gaeco, destacou que a adulteração de combustíveis não se limita mais aos postos de “bandeira branca”, sem vínculo com grandes marcas. “O negócio deles é fraudar, não importa como”, declarou.
A Operação Carbono Oculto segue em andamento para desestruturar a atuação do crime organizado em setores formais da economia.