A Leica Camera, fabricante alemã de câmeras fundada há mais de um século, busca crescer sem ficar presa apenas ao passado, afirmou o diretor-executivo Matthias Harsch ao Financial Times. O executivo considera que “excesso de nostalgia é sempre perigoso”, mesmo para uma empresa que atingiu status de ícone entre fotógrafos e colecionadores.
Criada em 1925 com o lançamento da primeira câmera de 35 mm produzida em série, a Leica enfrentou grave crise em 2005, quando as vendas despencaram diante da popularização das câmeras digitais de baixo custo produzidas por concorrentes japonesas. O colapso foi evitado pelo investidor austríaco Andreas Kaufmann, que assumiu o controle e hoje preside o conselho.
Neste ano fiscal encerrado em março, a companhia registrou receita recorde de 596 milhões de euros (R$ 3,7 bilhões), 8% acima do período anterior, e alcançou a maior margem de lucratividade da história. Em 2004-2005, o faturamento era de apenas 94 milhões de euros (R$ 588 milhões). A gestora Blackstone detém cerca de 45% do capital; desde 2012, a empresa não é listada em bolsa.
Com aproximadamente 2.400 funcionários distribuídos entre a fábrica de Wetzlar, uma unidade em Portugal e mais de 120 lojas próprias em todo o mundo, a Leica responde por um quarto das vendas globais de câmeras cujo preço supera 4.000 euros (R$ 25 mil). O modelo mais recente da série M custa cerca de 8.000 euros (R$ 50 mil), sem lente.
Kaufmann impulsionou projetos que combinam tradição e tecnologia, entre eles uma câmera digital exclusivamente em preto-e-branco e outra sem tela traseira. Em 2008, a empresa lançou uma lente de 50 mm vendida por até 12.350 euros (R$ 77,2 mil), considerada superior à capacidade de percepção do olho humano.
A compatibilidade de equipamentos novos com lentes fabricadas desde a década de 1930 é um dos pontos destacados por especialistas. Para reforçar a imagem premium, a Leica promove leilões internos — em 2023, um protótipo de 102 anos alcançou 7,2 milhões de euros (R$ 45 milhões) — e transforma muitas de suas lojas em galerias.
Imagem: redir.folha.com.br
Além de colaborar com Huawei e Xiaomi no desenvolvimento de smartphones, a empresa criou um aplicativo que aplica o “visual Leica” às fotos feitas em celular. Também entrou no segmento de relógios de luxo e prepara uma linha de óculos. Ainda assim, as câmeras continuam responsáveis por 80% da receita.
Harsch, no comando desde 2017, aposta agora em projetores domésticos, comercializados por 3.500 euros (R$ 22 mil) cada. O executivo acredita que a troca de televisores por projeções pode ampliar o uso da expertise óptica da companhia, invertendo o processo fotográfico tradicional: em vez de captar luz, o equipamento a projeta sobre superfícies.
“É preciso levar nossas competências para novas áreas de negócios”, afirmou o CEO, reforçando que inovar sem se prender em demasia ao passado é crucial para evitar os erros que quase levaram a Leica à falência há duas décadas.