Enquanto levantamentos recentes indicam que os mais jovens trocam de trabalho com rapidez, histórias de profissionais com décadas de carteira assinada mostram que o vínculo de longo prazo ainda sobrevive no mercado brasileiro.
José Vitor Faustino, 83 anos, é gerente da Itaiquara Alimentos, em Tapiratiba (280 km de São Paulo). Contratado em 1956, aos 14 anos — então idade mínima permitida —, ele chegará a 70 anos de registro pela mesma companhia em 2026. Mesmo após sofrer um AVC que comprometeu a visão do olho esquerdo, manteve a rotina de segunda a sexta-feira. Aos 74, formou-se em Direito.
A professora Marilisa Grottone, 79, dirige o Colégio Santa Cecília, em Santos, desde 1980. Iniciou-se na instituição em 1962, como auxiliar administrativa, passou pela sala de aula e recusou deixar o colégio mesmo após ser aprovada em concurso estadual.
Na indústria química, Sergio Crude, 65, acumula 45 anos na multinacional alemã Henkel. Hoje liderança regional de saúde, segurança e meio ambiente, ele diz ter acompanhado as transformações da empresa e garante manter-se atualizado “até para operar fax”. Aposentado desde 2014, afirma não cogitar ficar em casa.
O Relatório Clima e Engajamento 2024, da plataforma Gupy, aponta que profissionais da geração Z — nascidos entre meados da década de 1990 e 2010 — permanecem em média nove meses no mesmo emprego.
Pesquisa Datafolha divulgada em junho de 2025 indica que 58% dos brasileiros preferem trabalhar de forma autônoma a ter carteira assinada; entre os jovens de 16 a 24 anos, o índice sobe para 68%.
Dados do Ministério do Trabalho e Emprego de 2020 revelam que, na faixa etária de 50 a 64 anos, 41,7% ficam dez anos ou mais no mesmo posto.
Imagem: redir.folha.com.br
Levantamento da LCA Consultores mostra que 74% dos empregadores percebem candidatos da geração Z mais exigentes em relação a salário; 68% dos jovens buscam vagas alinhadas aos próprios valores.
Para Maria Cristina Pereira Matos, professora e consultora em recursos humanos, a geração Z prioriza saúde mental e equilíbrio, enquanto gerações anteriores valorizavam estabilidade e ascensão dentro da empresa.
Tiago Santos, vice-presidente da plataforma Sesame, avalia que o principal erro das companhias é recrutar como se os jovens fossem permanecer indefinidamente, quando muitos tratam o emprego como projeto com início, meio e fim.
Faustino, Grottone e Crude não planejam se afastar do trabalho. O gerente da Itaiquara diz que continuará “até a véspera do enterro”; a diretora do Santa Cecília conta que recebe netos de ex-alunos e considera a experiência gratificante; já o funcionário da Henkel prefere a rotina corporativa à aposentadoria.
A despeito da rotatividade crescente entre os mais jovens, os três veteranos seguem firmes nas respectivas empresas, sustentando o modelo de carreira longa sob a Consolidação das Leis do Trabalho.