Berlim, 8.jan.2026 – A Comissão Europeia reafirmou nesta quinta-feira (8) seu apoio à assinatura do acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul, mesmo diante da oposição da França. “Vendemos 60 bilhões de euros a mais do que compramos de nossos parceiros em todo o mundo. É um resultado extraordinário sob qualquer métrica econômica”, declarou o porta-voz Olof Gill.
Questionado sobre a possibilidade de concluir o pacto sem o aval francês, Gill destacou o desempenho do setor agrícola do bloco, evitando comentar diretamente a dissidência de Paris. A eventual aprovação representaria a primeira vez que um tratado comercial da UE avançaria sem o respaldo de um de seus membros fundadores.
Enquanto Bruxelas avançava nas tratativas, agricultores franceses protestaram em pontos simbólicos da capital, como o Arco do Triunfo e a Torre Eiffel. Manifestantes, que acusam o governo Emmanuel Macron de negligenciar o campo, hostilizaram a presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, chamada de “traidora” e atingida por um líquido antes de ser retirada por seguranças.
O Conselho da União Europeia se reúne nesta sexta-feira (9) para deliberar sobre o texto final. Caso receba sinal verde, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, deve embarcar no fim de semana para Assunção, no Paraguai, onde a cerimônia de assinatura está agendada para segunda-feira (12). As negociações começaram em 1999.
Inicialmente alinhada à França, a Itália condiciona seu apoio a um mecanismo que permita intervenção no mercado de produtos como carne e açúcar quando os preços variarem 5%, em vez dos 8% previstos na versão atual. O ministro da Agricultura, Francesco Lollobrigida, afirmou que “estamos na reta final”.
Imagem: redir.folha.com.br
Roma já obtivera da Comissão a antecipação de 45 bilhões de euros em subsídios agrícolas e a flexibilização do CBAM, a nova taxa de carbono sobre fertilizantes – reivindicações também defendidas por Paris.
Se a Itália confirmar o voto favorável, a França deverá contar apenas com Polônia, Hungria e Irlanda — esta última afirmou na quinta-feira que as últimas alterações ainda não atendem suas preocupações. O grupo não alcança a minoria de bloqueio, que exige ao menos quatro países somando 35% da população do bloco.
“Nos acordos comerciais, os Estados-membros concedem mandato à Comissão para negociar em nome deles. Depois, votam o resultado em procedimentos plenamente democráticos”, disse Gill. “Se um ou mais países se opõem, isso significa apenas que há oposição. É a democracia em ação.”