Estudos recentes mostram que choques geopolíticos provocam reações distintas nos principais ativos financeiros, dificultando a criação de estratégias preventivas pelos investidores. Levantamento da Quantum Axis avaliou quatro episódios — a invasão da Ucrânia pela Rússia (24/02/2022), o aumento de tensão entre China e Taiwan (02/08/2022), o ataque do Hamas a Israel (07/10/2023) e a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela (27/12/2025) — e concluiu que cada conflito gerou efeitos próprios sobre petróleo, bolsas, câmbio e juros.
No caso ucraniano, o petróleo Brent avançou 16,58% no intervalo de 21/2 a 3/3 de 2022, enquanto índices acionários tiveram variação modesta: Dow Jones recuou 0,83% e Ibovespa subiu 3,08%. Já nas demais crises o barril chegou a recuar, mesmo com foco no Oriente Médio. Após o ataque a Israel, o Brent cedeu 5,08% entre 29/9 e 16/10 de 2023.
As bolsas norte-americanas também reagiram de maneira heterogênea. Na tensão China–Taiwan, o Nasdaq saltou 8,05% e o S&P 500 avançou 5,14% entre 26/7 e 9/8 de 2022. Em contraste, o movimento envolvendo Venezuela provocou alta contida de 0,52% no S&P 500 no período de 26/12 a 9/1, enquanto o Ibovespa ganhou 1,54%.
Ermínio Lucci, presidente da corretora BGC Liquidez, destaca que, historicamente, petróleo, ouro, dólar e títulos do Tesouro dos EUA eram os refúgios clássicos. Entretanto, a relevância do petróleo na matriz energética e as dúvidas sobre o equilíbrio fiscal norte-americano vêm enfraquecendo a procura por esses ativos. “Desde 2025, com a ação militar americana na Venezuela, o dólar e os Treasuries deixaram de exibir a correlação habitual”, afirma.
A busca por proteção migrou para metais preciosos e industriais — ouro, prata, cobre e terras-raras — além do franco suíço, que, segundo Lucci, assumiu parte do papel tradicionalmente ocupado pela moeda norte-americana. O confisco de reservas russas no exterior também impulsionou a compra de ouro por bancos centrais.
Para Marcos Praça, analista da Zero Hedge, a especulação acentua movimentos de curto prazo. Ele cita as ameaças dos EUA ao Irã como exemplo de evento que gera impactos emocionais sem alterar fundamentos de empresas americanas ou brasileiras. “O investidor precisa separar o que muda na realidade econômica daquilo que é puro ruído”, recomenda.
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João Daronco, da Suno Research, ressalta que commodities ligadas a países diretamente envolvidos tendem a oscilar mais. O petróleo chegou a encostar em US$ 120 por barril no início da guerra na Ucrânia, mas depois voltou às médias históricas. “O mercado costuma superestimar riscos; mais dinheiro se perde tentando antecipar crises do que nas crises em si”, argumenta.
Daronco lembra episódios recentes, como o receio com as contas públicas brasileiras no fim de 2024, que fez o dólar disparar e a B3 despencar, seguido de forte recuperação. Para ele, a disciplina em momentos de estresse ou euforia é fundamental para evitar prejuízos provocados pelo efeito manada.
Assim, embora conflitos continuem a gerar volatilidade, o estudo da Quantum Axis indica que não há padrão único de reação. Com o dólar e os Treasuries perdendo protagonismo como refúgio, investidores passam a diversificar a proteção em metais e moedas alternativas, enquanto analisam com cautela o real impacto econômico de cada evento.