Brasília – O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a taxa básica de juros em 15% ao ano pela quinta reunião consecutiva, mas comunicou de forma explícita que pretende começar a reduzir a Selic em março, desde que o cenário econômico evolua conforme o previsto.
Em nota divulgada na noite de quarta-feira (data da reunião), o colegiado afirmou que “antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião”, salientando que continuará a adotar “a restrição adequada” para assegurar a convergência da inflação à meta.
O comunicado realçou a necessidade de “serenidade” na definição do ritmo e da magnitude do ciclo de afrouxamento. A palavra-chave levou analistas a revisar projeções: parte do mercado passou a apostar em corte inicial de 0,25 ponto percentual, enquanto outra fatia mantém a expectativa de 0,50 ponto.
Para Étore Sanchez, economista da Ativa Investimentos, termos como “calibragem” e “serenidade” sugerem início com redução de 0,25 ponto. Ele lembra que a mediana das projeções do Boletim Focus indicava recuo de 0,50 ponto em março e, diante do tom do Copom, alterou sua estimativa para 0,25 ponto, prevendo Selic em 11,50% ao fim de 2026.
Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, destaca que as projeções do Banco Central para a inflação do terceiro trimestre de 2027 foram mantidas em 3,2%. Considerando a cotação do dólar a R$ 5,35 nas contas da autoridade monetária – acima dos atuais R$ 5,25 –, ele calcula que a inflação projetada cairia para 3,0%, “compatível com o cumprimento da meta”. Megale projeta cinco cortes de 0,50 ponto a partir de março, levando a Selic a 12,50% no fim do ano.
Raphael Vieira, co-head de Investimentos da Arton Advisors, avalia que o Copom reconhece a desaceleração da atividade e o arrefecimento gradual dos preços, mas permanece preocupado com a desancoragem das expectativas e com a resiliência da inflação de serviços. “O ciclo deve ser gradual e dependente dos dados”, resume.
Para Leonardo Costa, economista do ASA, o BC surpreendeu ao explicitar o início dos cortes já na próxima reunião, ainda que em tom “altamente cauteloso”. Ele aposta em redução de 0,25 ponto em março, com chance menor de 0,50 ponto, e Selic a 12,5% em 2026.
Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, classifica a mensagem como “um pouco mais dovish”. A valorização recente do real e a expectativa de números mais fracos de atividade em dezembro reforçam, segundo ela, a possibilidade de corte de 0,50 ponto; há até probabilidade, ainda que pequena, de 0,75 ponto. A gestora mantém projeção de 0,50 ponto em março e taxa terminal de 13% em 2026.
Imagem: infomoney.com.br
Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, argumenta que o Copom não alterou projeções nem balanço de riscos, mas sinalizou cautela quanto à velocidade e ao tamanho do ciclo. Ele vê início com 0,25 ponto e Selic em 12% no fim de 2024.
José Márcio Camargo, da Genial Investimentos, considerou “surpreendente” a clareza sobre o início do afrouxamento. Para ele, o BC ganhou confiança na eficácia da política monetária, mas ainda observa mercado de trabalho apertado e expectativas de inflação desancoradas para 2026 e 2027.
Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, prevê cortes somando 2,50 pontos em 2024 e Selic encerrando 2026 em 12,5%. Entretanto, alerta que riscos fiscais e eventual mudança no câmbio podem limitar reduções.
Antonio Sanches, analista da Rico Investimentos, espera corte de 0,50 ponto em março, seguido por outras cinco reduções até 12,5% no fim do ano. “Os juros continuarão elevados, o que é negativo para endividados, mas segue atrativo para quem investe em renda fixa”, afirma.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nota de “enorme preocupação” com a manutenção da taxa em 15%. Segundo o presidente da entidade, Ricardo Alban, o atual nível de juros “aprofunda a desaceleração do crescimento” e o Copom “deveria ter iniciado o ciclo de redução há muito tempo”. A CNI considera indispensável que os cortes comecem já na próxima reunião.
A próxima decisão do Copom está marcada para março, quando o mercado verificará se a autoridade monetária dará início ao ciclo de flexibilização e em qual intensidade.