A reorganização das reservas internacionais de diversos países vem deslocando, ainda que de forma gradual, parte dos recursos antes concentrados em ativos denominados em dólar para o ouro. O movimento, descrito por gestores como estrutural e sem retorno, foi detalhado no programa Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo, que recebeu Bruno Garcia, sócio e gestor da Truxt Investimentos, e Artur Carvalho, sócio e economista-chefe da mesma casa.
Segundo Garcia, “o ouro está ganhando por W.O.”, expressão usada para resumir a preferência crescente dos investidores por uma reserva considerada neutra em meio a tensões geopolíticas. Ele observa que não há uma fuga abrupta dos Estados Unidos, mas um redirecionamento marginal que, em mercados menores, provoca forte impacto sobre preços e poder econômico.
Carvalho atribui a perda de força do dólar à percepção mundial de que o sistema financeiro comandado por Washington passou a ser usado como ferramenta política. Para fugir desse risco, governos e empresas procuram alternativas. Um exemplo citado foi a ampliação do uso do yuan nas transações da China com grandes fornecedores, entre eles a brasileira Vale (VALE3).
O economista questiona a lógica de manter recursos aplicados em Treasuries — títulos que podem ser congelados ou desvalorizados — se o país sabe que precisará, por exemplo, de petróleo. “Se vou consumir petróleo no futuro, por que não estocar a própria commodity?”, indaga.
Essa realocação reduz a demanda permanente por ativos em dólar, um dos principais pilares da hegemonia americana. Para Garcia, o efeito colateral é direto: com déficit fiscal e em conta-corrente, os EUA terão de pagar juros mais altos para se financiar caso o apetite global pela moeda diminua.
Ao todo, cerca de US$ 38 trilhões permanecem aplicados em instrumentos atrelados ao dólar, mas o “fluxo marginal” já mudou, afirma Carvalho. O primeiro passo foi manter os papéis e fazer hedge cambial; o segundo, vender lentamente. Na avaliação do economista, reconstruir a credibilidade do sistema será tarefa “quase impossível”.
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Collazo questionou os convidados sobre o impacto das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Ambos consideram o pleito relevante, porém insuficiente para reverter a tendência. Eles destacaram ainda decisões pendentes da Suprema Corte que podem definir o alcance de medidas tarifárias de Donald Trump, o que tende a ampliar a incerteza.
Garcia recorre a estudos do investidor Ray Dalio para ilustrar a passagem de um ciclo de estabilidade para outro, marcado por rupturas e maior risco de conflitos. “Confiança é um ativo escasso: leva tempo para conquistar e pode se perder rapidamente”, resume.
Embora o reposicionamento represente risco sistêmico para os EUA, países emergentes — como o Brasil — poderão aproveitar oportunidades na transição, avaliou Carvalho. Ainda assim, o alerta aos investidores é claro: a configuração econômica global está mudando com velocidade e pode não voltar ao que era antes.