Fabricantes de tecnologia e desenvolvedores de inteligência artificial intensificaram a busca por dispositivos capazes de substituir o smartphone, enquanto o mercado tradicional dá sinais de retração e enfrenta custos mais altos de produção.
Em janeiro, Sam Altman, presidente-executivo da OpenAI, afirmou que a empresa está “no caminho certo” para lançar um novo aparelho no segundo semestre. Altman, que trabalha ao lado do designer Jony Ive, evitou revelar detalhes, mas disse que a interação será diferente da oferecida pelo iPhone, comparando o uso dos celulares à agitação da Times Square.
Dois dias após essa declaração, surgiram informações de que a Apple desenvolve um broche vestível para se antecipar ao projeto de Altman e Ive.
A Meta, dona do Facebook e do Instagram, redirecionou recursos de realidade virtual para acelerar a produção de óculos inteligentes equipados com IA. A Amazon, por sua vez, apresentou a assistente Alexa+ para suas caixas de som Echo e planeja levar o recurso a óculos e fones de ouvido inteligentes.
Mesmo sob pressão, Apple e Google continuam expandindo a parceria. Neste mês, as empresas anunciaram que o assistente de voz Siri passará a usar os modelos de linguagem Gemini, do Google, em uma atualização prevista para este ano.
A consultoria Counterpoint Research projeta recuo de 6% nos embarques globais de smartphones em 2026, pior que a estimativa anterior de 2%, e não prevê recuperação antes de 2027. Em 2025, o crescimento foi de 2%.
O aumento do preço da memória contribui para o declínio. Segundo a consultoria, o custo de 12 GB de DRAM subiu cerca de US$ 70 nos últimos 15 meses, elevando a pressão sobre fabricantes, inclusive a Apple.
A chamada “guerra das fundições” também pesa sobre o setor. Gigantes dos semicondutores, como a TSMC, priorizam hoje pedidos de empresas de chips de IA, como a Nvidia, consideradas mais lucrativas, reduzindo a disponibilidade de componentes para smartphones.
Empresas que planejam novos dispositivos buscam escapar das tarifas de até 30% cobradas pela Apple sobre compras feitas em aplicativos. A OpenAI, que fatura principalmente com assinaturas, perde parte dessa receita quando a contratação ocorre em iPhones ou aparelhos Android.
Imagem: redir.folha.com.br
A Meta procura diminuir a dependência do duopólio desde que a Apple implantou, em 2021, a opção de impedir o rastreamento de usuários, medida que prejudicou a publicidade da rede social.
A adoção de produtos alternativos ainda é limitada. O HSBC calcula 15 milhões de usuários de óculos inteligentes no mundo, contra 250 milhões de iPhones vendidos somente no ano passado.
Experiências anteriores ressaltam obstáculos. O Google Glass foi retirado do mercado em 2015 após críticas de privacidade. Em 2023, o broche da startup Humane deixou de ser vendido por aquecimento excessivo e baixa autonomia de bateria.
Alex Katouzian, da Qualcomm, acredita que novos acessórios proliferarão, mas que os smartphones seguirão realizando o processamento pesado. Mark Zuckerberg, da Meta, compartilha a visão de que usuários de óculos inteligentes continuarão usando seus celulares, ainda que com menor frequência.
A Apple trabalha em óculos inteligentes apoiados na tecnologia desenvolvida para o headset Vision Pro, lançado em 2024. O Google apresentou o Android XR, plataforma para óculos e headsets de realidade estendida, além de um alto-falante alimentado pelo Gemini.
Ao embarcar o Gemini nos ecossistemas da Apple e do Android, o Google passa a acessar um volume maior de dados de usuários, potencial que já se reflete em valor de mercado: a Alphabet ultrapassou recentemente a Apple. Analistas avaliam que a fabricante do iPhone pode ter cedido terreno estratégico ao parceira.