São Paulo – O ex-executivo do setor financeiro Candido Bracher alerta para o enfraquecimento do debate sobre mudanças climáticas no cenário internacional. Em artigo, o administrador formado pela FGV cita declarações de autoridades e executivos para mostrar como o tema vem perdendo relevância política e econômica.
Bracher lembra declaração recente do presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC): “São a química e a física que determinam que é necessário reduzir a zero as emissões líquidas [de gases de efeito estufa] se desejamos conter o aquecimento global; e isso não é uma escolha política”. Para o articulista, a fala evidencia a necessidade de decisões baseadas em evidências científicas, independentemente de ideologias.
Segundo o presidente global da Nestlé, entrevistado pelo Financial Times, a sustentabilidade deixou de ser pauta recorrente nas reuniões com investidores nos Estados Unidos. “Se você pensar nisso em retrospecto, cinco ou três anos atrás, em reuniões com investidores, surgiam muitas perguntas sobre sustentabilidade. De alguma forma, nos EUA, isso simplesmente saiu completamente de pauta”, relatou o executivo.
O fenômeno tem até nome próprio: “greenshushing”, termo usado para descrever empresas que preferem não divulgar iniciativas ambientais a fim de evitar críticas de autoridades ou do mercado.
Bracher também menciona a revogação, há poucas semanas, do fundamento legal que permitia ao governo norte-americano regular as emissões de veículos e indústrias. A mudança, que ainda depende de confirmação pela Suprema Corte — hoje com maioria conservadora —, pode dificultar futuras tentativas de retomada dessa competência por parte de outra administração federal.
Além disso, o Departamento de Defesa foi orientado a adquirir energia produzida a partir de carvão, medida interpretada pelo autor como sinal de desdém em relação aos esforços de descarbonização.
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Durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, criticou o que chamou de “acomodação” de países de porte médio ao crer na permanência de uma ordem multilateral baseada em regras, apesar de sucessivas violações por grandes potências. Bracher utiliza o discurso para ilustrar o que vê como “cegueira deliberada” frente à crise climática.
Para reforçar o argumento, o articulista faz referência ao dramaturgo e ex-presidente tcheco Václav Havel: um lojista que pendura, diariamente, um cartaz com a frase “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”, apesar de não acreditar nela, apenas para evitar problemas. O exemplo serviria de metáfora para a inércia coletiva diante do aquecimento global.
Bracher conclui que o avanço das emissões não se deve apenas à resistência de setores conservadores ou a interesses econômicos imediatos, mas também ao “autoengano” social que permite a manutenção do status quo.