Washington (04.fev.2026) – O Washington Post comunicou nesta quarta-feira (4) a dispensa de mais de 300 dos cerca de 800 jornalistas da redação. Entre os demitidos está Martin Weil, repórter que ingressou no jornal em 1965 e acumulou seis décadas de trabalho na editoria local.
Segundo pessoas a par da medida, o corte atinge com especial intensidade a cobertura metropolitana, que passou de aproximadamente 200 profissionais no início dos anos 2000 para menos de 20 após o anúncio.
Weil tornou-se conhecido no Post ainda nos anos 1970, quando escutou no rádio da polícia o alerta “portas abertas no Watergate” na noite de 17 de junho de 1972. No dia seguinte, confirmou na editoria de cidade que a sede do Comitê Nacional Democrata fora arrombada, episódio que se transformaria no escândalo Watergate.
“Trabalhei lá por 60 anos; quantas pessoas podem dizer isso sobre qualquer profissão?”, declarou o jornalista, que prefere não revelar a idade atual. Ele contou que a sensação de ver o próprio texto impresso “nunca desapareceu”.
O modelo de negócios do Post mudou nos últimos anos, direcionando-se a uma audiência nacional desde a compra do jornal pelo fundador da Amazon, Jeff Bezos, em 2013. A guinada reduziu espaço para a cobertura regional que sustentou a carreira de Weil.
Durante décadas, o repórter trabalhou majoritariamente no turno da noite, revisando sucessivas edições impressas. Cobriu assassinatos, incêndios e grandes tragédias – do ataque ao Pentágono em 11 de Setembro ao massacre da Virginia Tech. Em 6 de janeiro de 2021, participou da cobertura da invasão ao Capitólio.
Imagem: redir.folha.com.br
Além dos casos criminais, Weil passou a preencher lacunas no jornal com breves textos sobre o clima. As descrições literárias de nuvens e neve conquistaram leitores fiéis.
Entre colegas, é lembrado pelo hábito de percorrer a redação para cumprimentar equipes antes de se sentar à mesa. Também se notabilizou pelo uso de listas telefônicas impressas para localizar testemunhas de crimes, método que rendeu furos durante a era pré-internet.
Com a dispensa anunciada, o jornalista encerra um vínculo que atravessou sete programas de demissão voluntária e diversas transformações no veículo. “É como a história do rei da França, que levou 40 mil homens morro acima e depois morro abaixo”, comparou, rindo, ao comentar a ascensão e queda da editoria local.