Milhares de companhias iniciaram uma ofensiva judicial para recuperar cerca de US$ 170 bilhões pagos em tarifas ao governo dos Estados Unidos depois que a Suprema Corte, na sexta-feira (20), concluiu que o então presidente Donald Trump excedeu sua autoridade ao adotar sobretaxas com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA).
A decisão, por 6 votos a 3, declarou ilegal o uso da IEEPA para impor tarifas, mas não esclareceu se, e de que forma, o Tesouro deve devolver os valores arrecadados. A questão retornará ao Tribunal de Comércio Internacional, responsável por definir o procedimento de eventuais reembolsos.
Logo após o veredito, Trump afirmou que pretende impor de imediato uma tarifa global de 10% amparada em outro dispositivo legal, medida que não impede a enxurrada de processos já protocolados. Segundo levantamento da Bloomberg, mais de 1.500 empresas ingressaram com ações preventivas no Tribunal de Comércio para garantir posição na fila de restituições.
Grandes redes de varejo, como Costco, e grupos industriais, a exemplo da produtora de alumínio Alcoa, estão entre os demandantes, ao lado de centenas de pequenos negócios americanos e subsidiárias de multinacionais. O Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA calcula que, até 14 de dezembro, mais de 300 mil importadores haviam quitado as tarifas agora contestadas.
Setores como têxteis, brinquedos, alimentos e bebidas concentram grande parte dos valores pagos por produtos acabados, enquanto máquinas, eletrônicos e veículos lideram a conta de componentes industriais. Empresas de vestuário, caso da Lululemon, já atribuíram à tarifa parte da redução de margens de lucro registrada em seus balanços.
Em manifestações por escrito, o Departamento de Justiça admitiu que a Corte de Comércio tem poder para ordenar o recálculo das taxas, mas deixou em aberto a possibilidade de limitar o grupo habilitado a receber. Advogados alertam que o governo pode exigir comprovação de que o custo não foi repassado ao consumidor final.
O histórico do tribunal indica experiência com devoluções em massa. Em 1998, após a Suprema Corte anular uma taxa portuária, cerca de 4 mil exportadores recuperaram US$ 750 milhões. Agora, porém, o volume em disputa é dezenas de vezes maior.
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Para importadores como a fabricante de produtos infantis Lalo, que desembolsou mais de US$ 2 milhões em tarifas, o objetivo é garantir lugar na linha de frente. “Queremos estar na primeira fila”, afirmou o cofundador Michael Wieder, estimando um processo longo até o ressarcimento.
Especialistas veem a estrutura das empresas como fator determinante: companhias de grande porte que internalizam diretamente suas mercadorias tendem a receber valores superiores aos de pequenos varejistas que compram de intermediários.
Mesmo sem cronograma definido, o mercado calcula que o Tesouro norte-americano, com caixa de quase US$ 774 bilhões, dispõe de recursos suficientes para cobrir a eventual devolução, embora o desembolso possa se estender por meses ou anos.
No curto prazo, analistas preveem impacto moderado nos resultados corporativos. Margens podem melhorar com a perspectiva de reembolso, mas a redução de preços ao consumidor é considerada improvável.
Enquanto o processo se desenrola, executivos como Hans Heim, da fabricante de bicicletas Ibis Cycles, resumem o sentimento predominante: “Receberemos o dinheiro de volta, mas preferiríamos que as tarifas nunca tivessem sido aplicadas”.