O mercado aguarda para a próxima segunda-feira (30) a divulgação dos resultados da Oncoclínicas, enquanto prossegue a due diligence conduzida pelo Grupo Porto e pelo Fleury para a criação de uma nova empresa de serviços oncológicos. Investidores temem que o endividamento da rede seja superior aos R$ 4 bilhões informados no balanço do terceiro trimestre de 2025.
Atualmente, a alavancagem financeira total da Oncoclínicas equivale a 4,2 vezes o Ebitda, cálculo que inclui a dívida líquida e valores de aquisições a pagar. Segundo a companhia, o montante é influenciado por uma provisão de R$ 217 milhões referente a CDBs aplicados no Banco Master, liquidado no ano passado.
Os termos de compromisso firmados com Porto e Fleury estabelecem que a operação só avançará se o passivo total da Oncoclínicas — englobando parcelamentos de fusões, tributos, fornecedores e demais instrumentos financeiros — ficar abaixo de R$ 2,5 bilhões.
No fim de 2025, a empresa realizou aumento de capital de R$ 1,4 bilhão e converteu parte das dívidas em ações, reduzindo o endividamento para R$ 2,8 bilhões. A expectativa é de nova queda no balanço que será divulgado na segunda-feira, aproximando-se do patamar exigido pelos futuros sócios.
A proposta em análise prevê que Fleury e Porto detenham, juntas, cerca de 30% da nova empresa, aportando R$ 500 milhões por meio de uma holding. A Oncoclínicas pretende captar até R$ 1 bilhão com a venda de participação nesse veículo e com a emissão de debêntures conversíveis. Parte da dívida operacional atual seria transferida para a nova sociedade, sujeita à aprovação de credores.
Relatório do BTG Pactual aponta que ativos da Oncoclínicas em Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia e na Arábia Saudita — avaliados em R$ 300 milhões — permanecerão fora da transação e não cobrem integralmente o passivo que ficará na empresa original.
De acordo com fontes próximas às negociações, o impacto da liquidação do Banco Master é visto como secundário; a principal incógnita continua sendo o tamanho efetivo da dívida. Ainda assim, é comum que passivos não identificados surjam em operações de fusão e, caso não afetem a viabilidade do negócio, os contratos podem ser ajustados.
Imagem: redir.folha.com.br
As ações da Oncoclínicas acumulam queda de 68,7% em 12 meses, piora associada aos escândalos envolvendo o Banco Master. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro detinha 15% do capital; 8,6% desse total estão sob controle do BRB, que ainda avalia o destino da participação em disputa judicial.
No setor, a Oncoclínicas é considerada atrativa por atuar em oncologia, serviço de maior margem ambulatorial. Hoje, a empresa realiza cerca de 92% dos atendimentos oncológicos da Porto. Para o Itaú BBA, a união com Fleury é coerente com o plano deste de ingressar em segmentos de maior complexidade. O Fleury já participa do mercado por meio de uma joint venture com Bradesco Saúde e Beneficência Portuguesa.
O BTG Pactual avalia que a entrada do Fleury pode suprir a falta de experiência operacional da Porto, mas também pode alterar a percepção dos investidores sobre o perfil conservador do grupo de diagnósticos, em contraste com a alavancagem elevada da Oncoclínicas.
Outro ponto em discussão é a migração dos contratos de credenciamento da Oncoclínicas com operadoras de planos de saúde e acordos de exclusividade, que podem exigir renegociação para a nova estrutura.