Especialistas do setor de energia afirmam que a estratégia do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para impulsionar a produção de petróleo na Venezuela esbarra em custos elevados, insegurança jurídica e desafios técnicos relacionados ao tipo de óleo predominante no país.
A Consultoria Rystad Energy calcula que seriam necessários US$ 183 bilhões em investimentos para que a produção venezuelana volte ao patamar de 3 milhões de barris por dia, volume registrado antes do declínio recente e três vezes superior ao atual. Segundo a empresa, apenas a recuperação de campos já existentes poderia acrescentar até 350 mil barris diários em três anos, desde que o petróleo se mantenha em torno de US$ 40 o barril.
Para retornar ao recorde de 3 milhões de barris, contudo, o preço internacional precisaria sustentar cotações acima de US$ 80, ou até superar três dígitos, observa Artem Abramov, chefe adjunto de análises da consultoria.
Boa parte das reservas venezuelanas é composta por óleo extrapesado, com grau API baixo e alto teor de enxofre. O geólogo Jorge Camargo compara o produto a um “piche” que exige injeção de vapor, bombeamento especial e processos de diluição para escoamento em oleodutos, resultando em desconto significativo em relação ao Brent.
João Figueira, que comandou operações da Petrobras na Venezuela entre 2009 e 2012, lembra que o país já expropriou ativos privados em duas ocasiões, fator que eleva o risco para companhias estrangeiras. “Investimento só ocorre quando há sinal econômico claro”, afirma.
Hugo Chávez estimou as reservas venezuelanas em 303 bilhões de barris, colocando o país entre os maiores detentores de petróleo do mundo. Avaliações recentes, porém, indicam que apenas 20 a 40 bilhões de barris seriam recuperáveis nas condições atuais de mercado e regulamentação, ainda assim acima dos 17 bilhões de barris provados do Brasil em 2024.
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O ex-presidente da Petrobras Jean Paul Prates destaca que o conceito de reserva é sensível às cotações internacionais e à estabilidade regulatória. Com o barril a US$ 60, parte importante do volume venezuelano “não fecha a conta”, diz, citando custos elevados de produção, dependência de diluentes importados, infraestrutura degradada e risco político.
Mesmo após apelos de Trump, grandes companhias norte-americanas, entre elas a Exxon, demonstraram cautela em ampliar investimentos no país. Para Figueira, o quadro representa um “desafio monumental”, agravado pelo impacto ambiental superior na extração do petróleo extrapesado venezuelano.
Enquanto persistirem os entraves econômicos e jurídicos, especialistas avaliam que a meta de elevar rapidamente a produção venezuelana permanecerá distante.