São Paulo – O educador financeiro Michael Viriato, autor da coluna “De Grão em Grão”, alerta que a sensação de viver num período econômico excepcionalmente conturbado não é novidade e não deveria servir de justificativa para adiar aplicações financeiras.
Em texto publicado nesta semana, o especialista lembra que, ao longo das últimas quatro décadas, praticamente todas as gerações conviveram com crises que pareciam intransponíveis no momento em que ocorreram.
No levantamento histórico feito por Viriato, os anos 1980 foram dominados pelas moratórias de dívida externa na América Latina e pela hiperinflação brasileira. Na década seguinte, o Brasil experimentou o congelamento de poupanças com o Plano Collor (1990), enquanto o cenário internacional sofreu abalos sucessivos: crise mexicana (1994), crise financeira asiática (1997) e moratória russa (1998).
O início dos anos 2000 registrou o estouro da bolha da internet, seguido pelos atentados de 11 de setembro de 2001 e pelos conflitos no Afeganistão e no Iraque. Em 2008, veio a maior crise financeira global desde a Segunda Guerra. Poucos anos depois, a Grécia entrou em colapso de dívida (2012).
Na década passada, a anexação da Crimeia pela Rússia (2014) e, mais recentemente, a guerra entre Rússia e Ucrânia voltaram a acirrar tensões geopolíticas. A pandemia de 2020 e os embates recorrentes no Oriente Médio completam a lista de eventos que, segundo o colunista, reforçaram a percepção de um ambiente permanentemente instável.
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Para Viriato, a abundância de notícias em tempo real faz o mundo parecer mais caótico do que em outras épocas, mesmo que a complexidade seja semelhante. Ele cita o “viés de retrospectiva”, conceito trabalhado pelo psicólogo Daniel Kahneman, segundo o qual eventos passados parecem mais previsíveis e menos ameaçadores quando relembrados.
O educador financeiro recupera ainda uma frase do investidor norte-americano Howard Marks: “Investir sempre significou conviver com o futuro e, consequentemente, com a incerteza”. Para o colunista, aguardar que os mercados se tornem simples pode significar a perda de oportunidades importantes.
Viriato conclui recomendando que poupadores mantenham o planejamento de longo prazo mesmo diante de turbulências, pois a história mostra que fases tidas como excepcionais tendem a se transformar em “apenas mais um capítulo” da economia mundial.