Brasília – Relatório sigiloso de comissão de sindicância patrimonial do Banco Central, concluído em 4 de março, afirma que o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana, simulou dois contratos que somaram R$ 4 milhões com a Varajo Consultoria para encobrir o recebimento de propina ligada ao Banco Master.
Os acordos foram firmados entre Santana e a empresa de Leonardo Palhares, apontado pela Polícia Federal como operador de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master.
No primeiro contrato, de R$ 2 milhões, Santana entregou um estudo de 50 páginas sobre educação financeira composto, principalmente, por resumos de oito artigos acadêmicos e entrevistas de terceiros. A comissão considerou “pouco crível” o valor pago, avaliando que o material poderia ser produzido com inteligência artificial ou por estagiários a custo muito inferior.
O segundo contrato pretendia complementar o estudo e promover um ciclo de palestras do projeto “Jovens Potentes”. Como resultados concretos, Santana apresentou a criação de uma logomarca, perfis nas redes LinkedIn e Instagram — com pouco mais de 1.000 seguidores — e a realização de um webinário que contou com 20 participantes. O post de maior engajamento no Instagram recebeu 65 curtidas.
Para a comissão, os serviços não exigiam a expertise do ex-chefe do BC, não guardavam relação com sua área de atuação e foram “meros negócios simulados” para legitimar pagamentos ilícitos.
• A Varajo Consultoria possui capital social de R$ 10 mil e sede em espaço de coworking, condição considerada incompatível com um projeto de R$ 4 milhões.
• Santana não consultou a Comissão de Ética do BC, embora tivesse integrado o órgão entre 2022 e 2025.
• O servidor ocupava, de 2019 a 2026, cargo de influência direta sobre instituições financeiras, inclusive o Banco Master, configurando potencial conflito de interesses.
O relatório propõe a abertura de processo administrativo disciplinar na Controladoria-Geral da União. Os indícios apontam para enriquecimento ilícito, corrupção e improbidade administrativa.
Imagem: redir.folha.com.br
Santana é alvo de investigação da Polícia Federal e cumpre medidas cautelares: suspensão de função pública, proibição de acesso às dependências do BC e monitoramento eletrônico.
A defesa de Leonardo Palhares informou que ele e a Varajo Consultoria colaboram com a Justiça. A assessoria de Daniel Vorcaro declarou que não comentará o caso.
Os advogados de Belline Santana disseram analisar o material reunido pela Polícia Federal e pela CGU. Segundo eles, o ex-servidor teria atuado de forma técnica e lícita no Banco Central, sem favorecer o Banco Master, e espera exercer plenamente o direito ao contraditório.
Em investigação paralela, o Banco Central identificou que o ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza teria simulado a venda de um sítio em Minas Gerais para ocultar propina também vinculada ao Banco Master.