Pedro Parente, ex-presidente da Petrobras (PETR3; PETR4), afirmou que o Brasil vive uma situação paradoxal: produz mais de 4 milhões de barris de petróleo por dia, mas ainda precisa recorrer ao mercado externo para suprir a demanda interna por gasolina, diesel e gás de cozinha.
Em entrevista ao programa Hot Market, da CNN Brasil, conduzido por Rafael Furlanetti, sócio-diretor institucional da XP, Parente atribuiu o problema a dois fatores principais: capacidade limitada de refino e inadequação técnica das refinarias existentes.
Segundo o executivo, o parque de refino nacional não possui número nem tamanho suficientes de unidades para processar todo o consumo interno. Além disso, o petróleo extraído no pré-sal é considerado leve, enquanto grande parte das refinarias brasileiras foi projetada para óleos mais pesados, predominantes antes das descobertas recentes.
“Não se coloca petróleo bruto no tanque do carro. Consumimos derivados”, destacou Parente, lembrando que a produção atual supera em mais de duas vezes o volume demandado no mercado interno, mas a conversão em combustíveis ainda depende de importações.
Parente também questionou a viabilidade de manter preços artificialmente baixos na Petrobras enquanto a companhia permanece listada em bolsa. O governo detém a maioria das ações ordinárias — com direito a voto —, porém esse bloco representa pouco mais de um terço do capital total.
“Quem é o dono da Petrobras hoje são os acionistas minoritários”, disse. Para ele, qualquer medida que reduza margens de lucro expõe a União a questionamentos jurídicos. A alternativa, sugere, seria fechar o capital caso o governo deseje praticar preços politicamente definidos.
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Parente citou a estatal da Noruega, que opera sem interferência política, como modelo de governança. No Brasil, lembrou, a venda da Refinaria de Mataripe, na Bahia, ao Fundo Soberano dos Emirados Árabes Unidos (Mubadala) por quase US$ 2 bilhões introduziu capital estrangeiro no setor, elevando a sensibilidade a interferências de preços.
Reconhecendo a pressão dos caminhoneiros por combustível mais barato, o ex-presidente da Petrobras defendeu um subsídio focalizado, financiado pelos próprios dividendos da companhia, para compensar profissionais que dependem do diesel. O modelo, argumenta, seria “fiscalmente neutro”, evitaria perdas de arrecadação com reduções de ICMS e não beneficiaria usuários de alto poder aquisitivo, como proprietários de embarcações de lazer.
Parente é sócio-fundador da eB Capital e já coordenou o racionamento de energia em 2001, liderou a reestruturação da Petrobras quando era a empresa mais endividada do mundo e comandou a BRF (BRFS3) após a crise da Operação Carne Fraca.