As remessas internacionais de soju, tradicional destilado sul-coreano, alcançaram US$ 104 milhões em 2024, o maior patamar já registrado e o quarto ano consecutivo de crescimento. Somadas às versões frutadas, as vendas externas totalizaram US$ 96 milhões, salto expressivo em relação aos US$ 29 milhões de 2019.
O avanço consolida a bebida como mais um instrumento do soft power da Coreia do Sul, que já se projeta globalmente com k-pop, k-dramas, cinema, gastronomia e moda. Em 2024, o soju chegou a 95 mercados, tendo Estados Unidos (24,3%), China (19,9%) e Japão (19,2%) como principais destinos. Com dados fortes em fevereiro, a expectativa do setor é superar o recorde novamente em 2025.
Ícone onipresente em bares e restaurantes do país, o soju ocupa lugar de destaque em músicas, séries e novelas coreanas. “O soju é um lubrificante social”, resume a professora Kil Seon Kyeong, 42, de Seul, ao explicar que a bebida facilita conversas em um ambiente conhecido pela formalidade.
Tradicionalmente produzido a partir de arroz, mas também de cevada ou batata-doce, o destilado costuma apresentar teor alcoólico entre 12% e 24%. A popularidade se beneficia do sabor neutro e do preço acessível — no Brasil, uma garrafa de 360 ml custa cerca de R$ 30.
A autora e empresária Irene Yoo, que lança em setembro o livro “How to Drink (and Eat!) Like a Korean”, atribui parte do crescimento internacional às referências frequentes em produções culturais. O hit “APT.”, gravado por Rosé (Blackpink) com Bruno Mars, por exemplo, transformou o soju em peça central de um “drinking game”.
Jogos com a bebida, como o somaek (mistura de soju e cerveja), circulam nas redes e já foram reproduzidos até pelo presidente Lee Jae-myung. Seguindo preceitos confucionistas, também há regras de etiqueta: os mais velhos são servidos primeiro, o copo deve ser segurado com ambas as mãos diante de alguém hierarquicamente superior e cada rodada exige novo brinde.
Imagem: redir.folha.com.br
Embora muitas vezes confundido com o saquê japonês, o soju é destilado, enquanto o saquê é fermentado. Em 2023, o saquê exportou US$ 294,3 milhões, impulsionado pela culinária japonesa. Especialistas apontam o shochu como equivalente mais próximo do lado nipônico, ainda que mantenha técnicas mais tradicionais.
No Brasil, o destilado aparece em drinques como a “sojurinha”, versão da caipirinha que trocou a cachaça pelo soju. Em São Paulo, casas como o Komah oferecem coquetéis com a bebida, e o bairro do Bom Retiro é ponto de encontro de apreciadores. Yoo incluiu a receita brasileira em seu livro após visitar o país, sugerindo acompanhamentos fortes, como pratos apimentados, frutos do mar e churrasco coreano.
A sommelière Vanessa Nakamura destaca a leveza e a variedade de sabores — especialmente as opções frutadas — como fatores que atraem novos consumidores, mas faz um alerta bem-humorado: “O soju é fácil de gostar, mas a ressaca depois não é legal”.