Mais de quinze dias após o início da operação militar norte-americana contra o Irã, Washington continua sem definir com clareza qual resultado pretende alcançar, observa o cientista político Gunther Rudzit, doutor pela Universidade de São Paulo e professor de Relações Internacionais da ESPM.
Durante participação no programa Expert Talks, da XP Investimentos, Rudzit lembrou a lição do estrategista prussiano Carl von Clausewitz: guerras são extensões da política e, portanto, cabe à liderança civil estabelecer objetivos. “Quando a meta não está nítida, os militares não conseguem atingi-la”, afirmou.
Segundo o professor, a Casa Branca e o governo israelense já citaram ao menos quatro propósitos distintos desde o início da ofensiva:
A multiplicidade de alvos, diz ele, dificulta qualquer declaração de vitória e prolonga a tensão nos mercados globais.
Para Rudzit, o Irã tem uma tarefa objetiva: não ser derrotado. Amparado pelo conceito clausewitziano de que a defesa possui vantagem estrutural, Teerã tende a esticar o confronto até que os custos para os Estados Unidos se tornem insustentáveis. “Quem está na defesa só precisa sobreviver”, resumiu.
Autoridades iranianas também veriam a batalha como existencial. Uma eventual mudança de regime poderia reproduzir o destino de Muammar Gaddafi ou Saddam Hussein, lembra o especialista.
Do lado norte-americano, o presidente Donald Trump enfrenta eleição de meio de mandato em novembro e não dispõe de espaço político para recuar sem ganhos concretos. A situação ficou mais delicada em 17 de outubro, quando o chefe de contraterrorismo do governo renunciou, alegando que o Irã não representava ameaça iminente aos EUA.
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Na arena militar, um navio anfíbio com fuzileiros navais deixou a Ásia rumo ao Golfo Pérsico. Rudzit interpreta o movimento como possível preparação para atacar a Ilha de Kharg, principal terminal de exportação de petróleo iraniano. O bloqueio da ilha poderia forçar Teerã a negociar e permitir ao presidente norte-americano apresentar um resultado tangível aos eleitores.
Mesmo assim, a Guarda Revolucionária Islâmica — que assumiu o controle efetivo do país após a morte do aiatolá Ali Khamenei — teria interesse em manter o Estreito de Hormuz fechado a embarcações ocidentais, prolongando a pressão econômica.
Na avaliação de Rudzit, Pequim é o único ator com capacidade real de influenciar Teerã. A China compra entre 80% e 90% do petróleo iraniano e deseja evitar uma escalada que comprometa seu abastecimento energético ou resulte na perda de outro aliado estratégico.
“Se aparecer notícia de que a China está pressionando o Irã, poderemos ver o processo acelerar”, concluiu o professor.