O Ministério da Fazenda deve mudar de posição e apoiar a retomada das obras da usina nuclear Angra 3, condicionando o aval à redução da tarifa estimada para a energia que será produzida, apontaram dois integrantes do governo Lula (PT).
A pasta era o único ponto de resistência dentro do Executivo, alegando alto impacto para o consumidor. Estudo do BNDES projeta tarifa entre R$ 778,86 e R$ 817,27 por MWh, enquanto recente leilão da Aneel contratou energia térmica a R$ 315 por MWh.
Entre as opções avaliadas estão a revisão da taxa interna de retorno do empreendimento, hoje em torno de 8%, e o enquadramento do projeto em linhas de crédito subsidiadas, como as do Fundo Clima operado pelo BNDES.
Mudanças dependerão do novo acionista privado da Eletronuclear. Em outubro de 2025, a Âmbar Energia, controlada pela J&F, firmou acordo para comprar por R$ 535 milhões a participação de 67,95% da Axia Energia (antiga Eletrobras) na estatal nuclear.
O governo tem até segunda-feira (9) para decidir se exerce o direito de preferência e recompra a fatia, hipótese considerada remota porque transferiria à União todo o custo da obra. Mantido o sócio privado, os investimentos serão compartilhados.
A construção de Angra 3 começou há 39 anos e está parada desde a Operação Lava Jato. A manutenção dos equipamentos custa quase R$ 1 bilhão anuais.
Segundo o BNDES, terminar o projeto custaria R$ 23,9 bilhões; desistir dele sairia entre R$ 21,9 bilhões e R$ 26 bilhões, devido à necessidade de desmontar estruturas, quitar empréstimos e devolver incentivos fiscais.
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Dentro da Fazenda, a Secretaria de Reformas Econômicas defendia a paralisação, calculando desembolso direto de cerca de R$ 9 bilhões para dívidas e contratos, além de uma perda contábil de R$ 12 bilhões em remuneração de capital.
Para encerrar a obra, o Tesouro teria de aportar recursos na Eletronuclear, pressionando o orçamento público e suscitando riscos de questionamentos de órgãos de controle. Caso o projeto continue, a companhia capta novos financiamentos e repassa custos às tarifas, reduzindo impacto imediato nas contas federais.
A decisão final cabe ao Conselho Nacional de Política Energética, que reúne 17 ministros. Se prevalecer a continuidade, o governo pretende:
Ainda não há data para a deliberação no CNPE. Até lá, Fazenda, Minas e Energia e outros ministérios seguem discutindo mecanismos para tornar Angra 3 financeiramente viável sem elevar excessivamente a conta de luz.