São Paulo – Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) registraram um 2025 recorde, com captação líquida de R$ 57,6 bilhões e expansão do patrimônio para R$ 734 bilhões, de acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
O total de carteiras saltou de 3.077, em dezembro de 2024, para 3.802 no fim de 2025, avanço de 23%. Na mesma comparação, a quantidade de contas mais que dobrou, passando de 147 mil para 356 mil.
Desde outubro de 2023, quando a regulamentação permitiu a entrada de investidores não qualificados, o varejo vem ampliando participação. As contas de pessoas físicas diretamente nos FIDCs somaram 58 mil em dezembro de 2025, frente a 43 mil em 2024, crescimento de 34,9%. Nas aplicações via “conta e ordem” em corretoras, que permanecem em nome das instituições, os registros avançaram de 147 mil para 203 mil.
Parte do interesse decorre da performance: várias carteiras renderam acima do CDI em 2025. Além disso, os FIDCs não sofrem cobrança do come-cotas semestral, típico de fundos de renda fixa e multimercado, e tendem a apresentar menor volatilidade por não adotarem marcação a mercado em seus recebíveis.
“O investidor precisa olhar o prazo, mas a oscilação costuma ser menor”, afirma Clara Sodré, analista de fundos da XP Investimentos. Segundo ela, a maioria dos produtos disponíveis ao varejo é formada por fundos de cotas (FIC-FIDCs), que aplicam em outros FIDCs e oferecem diversificação, análise de risco e subordinação maior.
JiveMauá Bossa Nova Crédito Securitizado (Varejo): R$ 206,9 mi
Solis Capital Antares Pioneiro: R$ 656,6 mi
FIC Valora Vanguard: R$ 217,8 mi
Jive Bossa Nova 90: R$ 640,4 mi
Solis Warehouse Multisetorial: R$ 241,7 mi
Asaas R. Ltd: R$ 18,1 mi
Total: R$ 1,98 bi
Fonte: Uqbar
Para Clara Sodré, os FIDCs de varejo devem ser classificados como renda fixa de maior risco e retorno (“high yield”). Leandro Turaça, sócio-fundador da Ouro Preto Investimentos, atribui o avanço do público geral a mudanças regulatórias, oferta via plataformas digitais e busca por alternativas além do CDI.
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No varejo, o aporte mínimo varia entre R$ 1 mil e R$ 10 mil; estruturas destinadas a investidores qualificados partem de R$ 50 mil a R$ 100 mil. Angelo Belitardo, analista da Hike Capital, cita produtos com tíquete ainda menor, a partir de R$ 100, quando distribuídos em “conta e ordem”.
Em cenário de juros elevados, FIDCs bem estruturados têm entregue, em média, CDI mais 2% a CDI mais 5% ao ano, de acordo com Turaça. Belitardo observa compressão desse prêmio à medida que cresce a concorrência por recebíveis de qualidade.
A expectativa é de continuidade do crescimento, impulsionado por expansão da distribuição e maior educação financeira. Ao mesmo tempo, o excesso de demanda deve elevar a seletividade e reduzir spreads nos fundos mais conservadores. A queda dos juros pode melhorar a adimplência dos devedores, mas também pressionar o retorno das carteiras disputadas.
George Wachsmann, conselheiro de gestoras, lembra que os FIDCs dependem do originador do crédito, figura nem sempre detalhada nos documentos. Ele destaca a rentabilidade e a isenção do come-cotas como pontos positivos, porém alerta para riscos de liquidez, transparência e a complexidade de classificação dessas carteiras na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e na Anbima.
Apesar dos desafios, o crescimento acelerado evidencia o movimento de transferência do crédito dos grandes bancos para o mercado de capitais e consolida os FIDCs como alternativa relevante para investidores de varejo.