São Paulo – O fundo de investimento Termópilas, maior acionista da Super Empreendimentos e Participações SA, alterou suas regras de amortização e resgate total em assembleia realizada em 16 de novembro, véspera da prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master.
De acordo com ata arquivada na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a reunião ocorreu às 15h de forma remota e dispensou convocação porque contou com a presença da totalidade dos cotistas. O documento registra a aprovação de “ajuste nas matérias de competência da assembleia especial no que se refere a amortização ou resgate total, bem como quórum de aprovação”. Também houve reformulação do regulamento, detalhando o processo de amortização.
Não há dados públicos que confirmem se foram efetuados resgates após a mudança. As demonstrações financeiras do Termópilas não foram atualizadas desde setembro de 2025, quando o patrimônio líquido informado era de cerca de R$ 934 milhões.
Na noite de 17 de novembro, um dia depois da assembleia, surgiram informações de que a Fictor havia feito proposta para comprar o Banco Master. Horas mais tarde, a Polícia Federal prendeu Vorcaro e, em seguida, o Banco Central decretou a liquidação da instituição. O banqueiro deixou a prisão 12 dias depois.
O Termópilas é controlado por outro fundo, seu único cotista, o que impede a identificação do beneficiário final por meio de documentos públicos. Informações enviadas à CVM em abril de 2025 mostram que o Termópilas integra a carteira do fundo Astralo 95, que possuía patrimônio de R$ 15 bilhões na época. Atualização de dezembro de 2025 indica aumento desse patrimônio para R$ 27 bilhões, mas, a pedido do administrador, a composição da carteira foi ocultada, prerrogativa permitida pela CVM por até 90 dias, com possibilidade de prorrogação.
O Astralo 95 está entre os fundos apontados pelo Banco Central como suspeitos de participar do esquema de fraude atribuído a Vorcaro e aparece em investigações sobre possível infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no mercado financeiro.
A Super Empreendimentos, investida pelo Termópilas, mantém diversas conexões com o círculo familiar de Vorcaro. Até julho de 2024, um dos diretores era Fabiano Zettel, casado com Natália Vorcaro, irmã do banqueiro. Ele foi substituído, mas Ana Cláudia Queiroz de Paiva, sócia de Zettel, continua na diretoria e aparece como administradora de outros negócios ligados ao grupo.
Imagem: redir.folha.com.br
A Super é proprietária de uma casa avaliada em R$ 36 milhões em Brasília, onde Vorcaro recebeu políticos como o senador Ciro Nogueira (PP) e o deputado Hugo Motta (Republicanos). A assessoria do banqueiro afirma que ele apenas aluga o imóvel.
Em dezembro de 2024, a Super doou um apartamento de quase R$ 4,4 milhões a uma mulher investigada em operação policial contra o tráfico de drogas em 2022. A defesa dela nega envolvimento com crimes. Nove meses antes da doação, o imóvel fora comprado da Viking, empresa da qual Vorcaro é sócio.
A gestão do Termópilas e do Astralo 95 é atribuída, nos registros da CVM, à Reag. Questionada sobre eventuais resgates no Termópilas após a prisão de Vorcaro e a liquidação do Banco Master, a administradora informou, em nota, que “não interfere nos negócios de seus clientes”. A Reag foi alvo da operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto para apurar ligações entre o setor de combustíveis, o PCC e instituições financeiras.
A reportagem procurou Daniel Vorcaro, Ana Cláudia Queiroz de Paiva e Fabiano Zettel, mas não obteve retorno.