A escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã transformou março em um dos meses mais difíceis para os multimercados brasileiros, mas parte dos portfólios de estratégia macro conseguiu atravessar o período no azul e sustentar resultados positivos em 2026.
Levantamento realizado pelo InfoMoney com base em dados da Economatica aponta que 80 fundos, de um universo de 200 carteiras macro com patrimônio superior a R$ 100 milhões e sem foco em crédito privado, fecharam março com rentabilidade acumulada positiva no ano.
Entre os dez maiores rendimentos de 2026, predominam veículos de menor tamanho, mas o Verde Master chama atenção ao combinar alto patrimônio – R$ 5,63 bilhões – com ganhos de 5,07% no período, superando o CDI.
Outras carteiras que preservaram avanço anual são:
No sentido oposto, carteiras alavancadas e de maior volatilidade registraram perdas mais acentuadas. O IHFA (Índice de Hedge Funds da Anbima) recuou 3,42% em março, pior marca mensal desde a queda de 6,24% em março de 2020, no início da pandemia.
A volatilidade do câmbio, a disparada dos juros e o tombo das bolsas, local e externa, pressionaram posições direcionais e pegaram diversos gestores no contrapé. Segundo Rodrigo Gatti, sócio da Parcitas Investimentos, a gestora compensou parte das perdas ao equilibrar apostas entre ações brasileiras e americanas, beneficiada pela correção mais forte nas praças desenvolvidas.
Gatti afirma que o fundo mantinha exposição modesta a juros domésticos, o que reduziu o impacto da alta das taxas. No momento, a carteira está mais concentrada em bolsa, dividida entre Brasil e Estados Unidos. “É difícil prever o fim da guerra; por isso, buscamos um portfólio equilibrado e com risco constante”, comenta.
Rafael Garcia, gerente de investimentos da ZIIN Investimentos, observa que carteiras menos expostas a ações e com proteção em moedas tiveram performance superior. No acumulado do ano, o Ibovespa sobe mais de 16%, enquanto o S&P 500 recua quase 10%, e o CDI rende 3,41%. “Fundos que vão bem até aqui tendem a ter reforçado posições em Brasil, tanto em bolsa quanto em juros curtos, reduzindo ou hedgeando o exterior”, diz.
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Para Rafael Meyer, portfolio manager da SWM Multi Family Office, março representou “uma das piores perdas mensais da história da classe”, com alfa médio próximo de –2,5%. Ele destaca que a correlação entre multimercados, bolsa e juros aumentou, comprometendo a diversificação. Ainda assim, a maior volatilidade abre oportunidades para realinhar posições a preços mais atrativos.
Gestores como Bruno Corteiro, da Kapitalo, mantêm apostas na parte longa da curva de juros e em petróleo, considerando que os danos à infraestrutura iraniana ainda não se refletem integralmente nos preços. Na Genoa Capital, André Raduan também enxerga espaço para novas altas da commodity, enquanto a Ibiúna Investimentos monitora a crise de crédito privado nos Estados Unidos e oportunidades pontuais em mercados como Hungria e Colômbia.
Apesar das fortes oscilações, analistas avaliam que os multimercados seguem úteis para diversificação, especialmente para investidores com horizonte de dois a três anos e tolerância a volatilidade. A seleção de gestores, porém, torna-se crucial: dos 276 fundos que compõem o IHFA, apenas 73 (26%) superaram o CDI no ano até março.
Entre as maiores carteiras macro, o mês foi negativo para a maioria, mas alguns nomes se mantêm no terreno positivo em 2026. Além do Verde, destacam-se:
Na avaliação de Gabriel Uarian, analista da Cultura Capital, o histórico mostra que, após correções severas, a categoria costuma recuperar parte das perdas nos meses seguintes graças à flexibilidade de mandato. Para isso, ressalta, é necessário horizonte de pelo menos três a cinco anos e alinhamento ao perfil de risco.
Com a Selic em 14,75% elevando o custo de oportunidade, a escolha do multimercado deixou de ser trivial, lembra Marcelo Boragini, da Davos Investimentos. “O que fez diferença foi a capacidade de adaptação dos gestores. A volatilidade deve permanecer alta, o que amplia oportunidades, mas também a dispersão de resultados”, conclui.