O governo federal postergou para 2027 a maior parte dos leilões previstos para as primeiras concessões de hidrovias do país, citando pressões de parlamentares, organizações civis e comunidades tradicionais.
O adiamento representa atraso de até dois anos em relação ao calendário original. A licitação da hidrovia do rio Madeira, inicialmente programada para julho de 2025, é um dos casos que passaram para 2027.
Na noite de 23 de fevereiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva revogou o decreto nº 12.600, de 28 de agosto de 2025, que autorizava estudos para empreendimentos no rio Tapajós. A medida foi anunciada pelos ministros Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência) e Sonia Guajajara (Povos Indígenas) após reunião com lideranças indígenas que contestavam o texto.
Além do Tapajós, os leilões das hidrovias dos rios Tocantins e Amazonas — esta última batizada de “hidrovia verde” — também foram empurrados para frente. Em 2026, o governo pretende apenas encaminhar os editais desses projetos ao Tribunal de Contas da União (TCU); ainda não há data para as disputas.
Dos cinco projetos considerados prioritários pelo Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), apenas a hidrovia do rio Paraguai, no trecho sul-matogrossense, segue com previsão de leilão no segundo semestre de 2026, embora sem garantia de realização.
No fim de semana de 21 de fevereiro, manifestantes indígenas entraram nas instalações da Cargill em Santarém (PA), ampliando protesto iniciado em 22 de janeiro contra o leilão do Tapajós. A ocupação, que já reunia cerca de 1.200 pessoas, contestava a ausência de consulta prévia, livre e informada, prevista na Convenção 169 da OIT, e apontava riscos à pesca, à segurança alimentar e aos territórios tradicionais.
No rio Madeira, parlamentares de Rondônia passaram a acusar o governo de “privatizar o rio” e questionaram eventual cobrança de tarifas. O MPor afirma que a concessão não transfere a posse do curso d’água, mas delega à empresa vencedora manutenção, dragagem, sinalização, gestão de tráfego e monitoramento ambiental.
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Segundo o secretário nacional de Hidrovias, Otto Luiz Burlier da Silveira Filho, a tarifa será cobrada apenas de transportadoras de carga por tonelada movimentada, sem custo extra para o transporte de passageiros ou para as comunidades locais.
O volume de cargas transportadas por rios brasileiros alcançou 140 milhões de toneladas em 2025, alta de 8,5% frente a anos anteriores. A proposta de concessão é vista pelo Executivo como essencial para reduzir custos logísticos, assegurando navegabilidade também em períodos de estiagem, como a que paralisou terminais em Porto Velho (RO) em 2024.
Empresas de navegação, tradings e produtores de grãos defendem o programa, alegando que a incerteza sobre condições de navegação eleva despesas e dificulta o escoamento.
Silveira Filho nega decisão política de concentrar todos os leilões em 2027. “Os projetos estão passando por maturação natural”, afirmou. No caso do Tapajós, o governo assumiu o compromisso de realizar a consulta prévia às comunidades, requisito que, segundo o secretário, altera o cronograma.
Com os editais agora previstos apenas para análise do TCU em 2026, a realização efetiva dos leilões de Tocantins, Tapajós e Amazonas ficará para 2027, caso não ocorram novos ajustes.