A maior recicladora de alumínio da Europa, a Novelis, alertou que o bloco pode enfrentar um colapso “terminal” no setor caso não limite o envio de sucata para a Ásia e os Estados Unidos. O vice-presidente executivo da companhia, Emilio Braghi, afirmou que compradores chineses estão adquirindo resíduos metálicos europeus, fundindo-os em seu território e devolvendo o material ao continente como metal “novo”.
“Já perdemos a produção primária. Agora corremos o risco de perder a sucata de alumínio”, disse Braghi, em entrevista em Bruxelas. Segundo ele, essa dinâmica ameaça as metas ambientais da União Europeia (UE), que pretende zerar as emissões líquidas de carbono até 2050.
Produtores europeus enfrentam custos de energia até quatro vezes maiores que os de concorrentes internacionais e, por isso, passaram a priorizar a refusão de sucata, processo menos intensivo em eletricidade. A estratégia está alinhada ao objetivo de reduzir dependência de insumos importados, especialmente da China.
Braghi destacou que o consumidor europeu está disposto a pagar mais por produtos com alto conteúdo reciclado. Cerca de 70% das latas de bebidas vendidas no continente são recolhidas, ante aproximadamente 40% nos Estados Unidos. O elevado índice de coleta, contudo, estimula revendedores a direcionar o material para mercados onde a remuneração é maior.
Nos Estados Unidos, tarifas de 50% impostas em 2018 sobre o alumínio primário incentivaram empresas a importar sucata – sujeita a taxas menores – para transformá-la em metal novo. Já Pequim tem subsidiado a expansão de capacidade de reciclagem para diminuir o consumo de matéria-prima virgem e reduzir emissões, o que permite às companhias chinesas pagar preços mais altos pelo resíduo europeu.
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Associações do setor afirmam que cerca de 15% dos fornos de reciclagem da UE estão parados por falta de sucata, deixando um déficit anual de cerca de 2 milhões de toneladas. O segmento movimenta €40 bilhões por ano, emprega 250 mil pessoas diretamente e sustenta outros 1 milhão de postos de trabalho no bloco.
Em novembro, o comissário europeu de Comércio, Maros Sefcovic, prometeu limitar as exportações de sucata para garantir oferta suficiente e preços competitivos às indústrias que utilizam alumínio. Entre as medidas em estudo estão a criação de uma taxa sobre embarques ao exterior ou a definição de metas mínimas de conteúdo reciclado. As propostas devem ser detalhadas nos próximos meses.
Braghi advertiu que, se as restrições não forem implementadas, o impacto poderá se estender a toda a cadeia de metais e comprometer as metas climáticas do bloco. “Não há muitos setores na Europa com um ecossistema tão desenvolvido, tecnologia avançada e know-how como o nosso”, concluiu.