Depois de mais de três décadas marcado por estagnação, juros negativos e deflação, o mercado japonês voltou a chamar atenção de gestores internacionais. A combinação de mudanças na governança corporativa, iene desvalorizado e o encerramento da política de taxas negativas em 2024 reacendeu o interesse pelo país, hoje visto como oportunidade de reprecificação.
Nos anos 1980, companhias japonesas respondiam por cerca de 45% da capitalização global de ações, e Tóquio era considerada o principal centro financeiro do planeta. O índice Nikkei, que atingiu seu recorde em 1989, simbolizava essa euforia. O estouro da bolha deu início às chamadas “décadas perdidas”, com crescimento fraco, deflação e bancos sobrecarregados por ativos problemáticos.
Para Lucas Collazo, apresentador do programa Stock Pickers, o cenário mudou porque “há empresas mais eficientes, múltiplos descontados e um câmbio que ajuda os lucros”. Ele avalia que o país oferece escala, liquidez e potencial de rerating em um momento de busca por diversificação fora dos Estados Unidos.
A trajetória japonesa remonta à Restauração Meiji, em 1868, quando o Japão rompeu com o feudalismo e lançou um projeto estatal de industrialização rápida. Surgiram os grandes conglomerados — os zaibatsu, reorganizados depois como keiretsu —, que integravam bancos, indústria e comércio exterior. O modelo sustentou o crescimento médio de 9% ao ano no pós-guerra, fazendo do país a segunda maior economia do mundo.
Com o tempo, participações acionárias cruzadas reduziram a pressão por rentabilidade, retendo capital em ativos pouco produtivos e derrubando o retorno sobre patrimônio das empresas. O quadro se agravou após o Acordo do Plaza, em 1985, que valorizou o iene e levou o Banco do Japão a liberar forte liquidez, inflando imóveis e ações.
O colapso da bolha em 1989 inaugurou um longo período de juros a zero — e depois negativos —, deflação e crescimento modesto. Paralelamente, o rápido envelhecimento da população pressionou consumo e contas públicas. Para estrangeiros, o mercado passou a ser interpretado como “armadilha de valor”: grande, líquido, porém sem catalisadores claros.
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A virada começou na década passada, quando reformas de governança corporativa ganharam força. Em 2023, a Bolsa de Tóquio passou a exigir que companhias priorizassem custo de capital e retorno ao acionista, estimulando dividendos, recompras e venda de ativos não estratégicos. “É uma mudança cultural profunda para um mercado que privilegiava estabilidade, não rentabilidade”, observa Collazo.
Em 2024, o Banco do Japão encerrou oficialmente a era dos juros negativos, sinalizando normalização gradual da política monetária. Ao mesmo tempo, o iene segue fraco — a moeda chegou a se aproximar de 160 ienes por dólar —, favorecendo exportadores e ampliando lucros em termos locais. Para investidores estrangeiros que adotam hedge cambial, o cenário se mostra ainda mais atrativo.
A combinação de câmbio competitivo, valuations descontados e melhora na governança coloca o Japão entre as histórias de reprecificação mais claras entre grandes mercados. Gestores globais, diante de avaliações elevadas nos EUA e déficits fiscais crescentes, voltam a considerar Tóquio como peça relevante de diversificação.
“Depois de 30 anos fora do centro das atenções, o país retorna não por euforia, mas por estrutura”, resume Collazo. O movimento, segundo analistas, é gradual e silencioso, impulsionado por ajustes institucionais e microeconômicos que reduzem riscos e elevam a disposição de pagar mais pelos ativos japoneses.