São Paulo – Para o economista Marcos Lisboa, ex-presidente do Insper e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, o colapso do Banco Master resulta de uma soma de equívocos cometidos por governo, reguladores e setor financeiro ao longo dos últimos anos.
Lisboa recorda que, nos últimos 19 meses, a Polícia Federal deflagrou as operações Quasar, Tank, Concierge, Hydra e Magnas Fraus, entre outras, envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro, apoio à sonegação fiscal e até vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Na Operação Carbono Oculto, por exemplo, foi identificada uma fintech que atuava como “banco paralelo”, movimentando mais de R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024. Nesse período, também foram liquidados o Will Bank e o Banco Pleno, enquanto o Banco de Brasília (BRB) enfrenta dificuldades conhecidas e o caso Reag amplia o problema.
Segundo o economista, incentivar a concorrência no sistema bancário foi uma diretriz relevante do Banco Central na última década, mas a tarefa de regular o setor permanece “tecnicamente difícil”.
Lisboa cita episódios que ampliaram o risco para as instituições financeiras, como o rompimento de contratos de leasing cambial no fim dos anos 1990, questionamentos a outras modalidades de leasing na década passada e impasses em financiamentos imobiliários pouco antes da crise de 2014. Para ele, essa instabilidade jurídica dificulta estimar perdas inesperadas e pode contaminar todo o sistema, a exemplo do que ocorreu na crise global de 2008.
Regras editadas a partir de 2013 permitiram a criação de fintechs e instituições de pagamento que podiam iniciar operações sem aval prévio do Banco Central até atingirem determinados limites. O objetivo era reduzir custos para o consumidor, como aconteceu com as transferências bancárias, mas também abriu espaço para a entrada de empresas hoje investigadas por crime financeiro.
Pressões políticas recentes chegaram a propor a ampliação da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), medida que, na avaliação do economista, poderia ter agravado a atual crise.
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Lisboa observa que, nas últimas três décadas, o quadro de servidores do Banco Central encolheu cerca de 40%, o que, aliado à falta de investimentos em tecnologia, restringiu a capacidade de supervisão. O órgão, afirma, passou a fiscalizar um número maior de instituições com menos pessoal e não conseguiu fortalecer mecanismos de prevenção a fraudes.
Embora o BC tenha adotado medidas prudenciais nos últimos anos, como ajustes na contabilização de precatórios em 2023, não foi suficiente para conter casos como o do Banco Master, cujo principal acionista, Daniel Vorcaro, chegou a ser preso em abril.
Entre as recomendações apresentadas, o economista sugere que o Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) ganhe governança e relevância semelhantes às do Copom, responsável pela política monetária, além de outras mudanças defendidas por especialistas como Jefferson Alvares.
Para Lisboa, apenas o reforço técnico e institucional do Banco Central – aliado a uma regulação compatível com sua capacidade de fiscalização – poderá evitar novos episódios de descontrole no sistema financeiro brasileiro.