O economista Michael França, pesquisador do Insper e vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico, contestou a avaliação do filósofo Luiz Felipe Pondé de que o Brasil permanece “na lata de lixo” institucional e não registrou avanços relevantes nas últimas décadas.
Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, Pondé afirmou que o país foi capturado por “gangues políticas”, estagnou em políticas públicas e não apresentou resultados significativos sob governos do PT. Ele também classificou o programa Bolsa Família como “voto de cabresto”.
França respondeu em coluna na mesma publicação que críticas sustentadas apenas em “exagero retórico” não contribuem para o debate público. O pesquisador lembrou que, entre os anos 2000 e 2010, o Brasil viveu uma das maiores expansões de inclusão social de sua história, com redução consistente da pobreza extrema.
Segundo o economista, estudos empíricos acumulados ao longo de duas décadas apontam impactos positivos do Bolsa Família sobre frequência escolar, indicadores de saúde infantil e queda da pobreza, o que, na avaliação dele, contradiz a tese de compra de votos.
França também destacou a resiliência democrática do país, que resistiu a crises institucionais, processos de impeachment, escândalos de corrupção e tentativas de ruptura. Para ele, esses fatos mostram que, apesar das falhas, o sistema político brasileiro não pode ser tratado como mero “lixo”.
Imagem: redir.folha.com.br
O pesquisador reconheceu, contudo, problemas persistentes: alta desigualdade, crescimento econômico irregular, baixa produtividade, violência elevada e expansão do crime organizado. Ele ressaltou que não pretende transformar os governos petistas em “narrativa de sucesso”, mas afirmou que negar totalmente os avanços sociais é desonesto com os dados disponíveis.
França avaliou que a insatisfação difusa com o Estado brasileiro é legítima, porém transformá-la numa leitura de “decadência total” gera apenas cinismo, posição que, segundo ele, pouco ajuda quem deseja melhorar o país.
O colunista concluiu que o Brasil não se resume nem ao cenário apocalíptico descrito por alguns críticos, nem à visão de êxito absoluto defendida por simpatizantes do governo. Para França, o país mescla progressos importantes e estagnações relevantes, quadro que exige análise equilibrada. O texto faz referência à canção “País Tropical”, de Jorge Ben Jor.