São Paulo – Três dos nove nomes considerados centrais pela Justiça na Operação Carbono Oculto foram identificados com vínculos diretos ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A decisão da 2ª Vara Criminal de Catanduva, que autorizou a ofensiva deflagrada na quinta-feira (28), cita 39 vezes a facção paulista e detalha a participação de Mohamad Hussein Mourad, Ricardo Romano e José Carlos Gonçalves, o “Alemão”.
Apontado como um dos principais operadores do esquema, Mourad controla empresas que atuam em toda a cadeia de combustíveis – de usinas sucroalcooleiras a redes de postos, padarias e lojas de conveniência. Promotores afirmam que o grupo foi estruturado para ocultar e lavar recursos ilícitos por meio de fraudes fiscais, contábeis e societárias. Mourad já havia sido alvo da Operação Cassiopeia, que investigou irregularidades na formuladora Copape e na distribuidora Aster. Após o início das apurações, ele teria passado a abrir empresas em nome de laranjas e a movimentar valores por firmas de fachada com CNPJs duplicados.
Considerado “figura-chave” para a lavagem de dinheiro ligada às empresas de Mourad, Romano é acusado pela Receita Federal de apresentar declarações fiscais falsas para justificar a compra de postos e operações tributárias. Relatórios indicam a criação artificial de R$ 21,65 milhões em espécie como patrimônio declarado de 2018, sem origem conhecida. Ele e a irmã teriam aberto 18 companhias denominadas “Strawberry Lojas de Conveniências Ltda.”, suspeitas de funcionar como veículos de lavagem. Em setembro do ano passado, Romano foi denunciado por sonegação de ICMS em empresas de sucata em Guarulhos; até fevereiro deste ano não havia sido localizado.
Procuradores afirmam que Gonçalves mantém “ligações fartas” com o PCC, atuando como financiador do tráfico e lavador de recursos. Ele e familiares possuem participações em redes de postos investigadas e, segundo a decisão, tentavam ocultar a real propriedade ao substituir sócios por parentes. Parte desses postos teria sido repassada a Romano. A investigação também aponta que Gonçalves foi sócio de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, delator da facção assassinado no Aeroporto de Guarulhos em novembro do ano passado.
Apontada pela Receita Federal como a maior ação já realizada contra o crime organizado em termos de cooperação institucional e amplitude, a Carbono Oculto mira mais de 350 alvos – pessoas físicas e jurídicas. São apurados crimes contra a ordem econômica, adulteração de combustíveis, delitos ambientais, lavagem de dinheiro, fraude fiscal e estelionato.
Imagem: redir.folha.com.br
Agentes cumpriram mandados em oito estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina. Até o início da tarde, seis dos 14 mandados de prisão haviam sido cumpridos. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, mencionou suspeita de vazamento prévio das ações.
Segundo a força-tarefa, a organização movimenta metanol, nafta, gasolina, diesel e etanol, controlando etapas portuárias, formulação, refino, transporte, distribuição e varejo, inclusive lojas de conveniência. Irregularidades foram encontradas em mais de 300 postos, com bombas que entregavam volume menor ou combustível fora das especificações. A Receita Federal calcula que mais de mil estabelecimentos ligados ao grupo movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.