Ao menos 46 contas em redes sociais estão publicando mensagens simultâneas contra o Banco Central (BC) e contra servidores que conduziram a liquidação do Banco Master. O volume de postagens aumentou nos últimos dias, em meio a disputas no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Contas da União (TCU) envolvendo advogados da instituição financeira e órgãos de investigação.
Os perfis, muitos deles dedicados a temas de fofoca e sem relação com economia, divulgam informações consideradas enviesadas sobre o processo que vetou a compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB) e sobre a posterior intervenção determinada pelo BC, em novembro.
Entre os principais atingidos estão o ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC, Renato Gomes, o presidente interino do BC, Gabriel Galípolo, o diretor de Fiscalização, Aílton de Aquino Santos, além de banqueiros e entidades do setor, como a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
Gomes, cuja área recomendou o veto à compra do BRB pelo Master, deixou o cargo em 31 de dezembro. Nos dias seguintes, perfis passaram a atribuir à gestão dele “instabilidade no mercado financeiro” e “insegurança jurídica”. O ex-diretor preferiu não comentar.
No Instagram, o perfil @divasdohumor afirmou em 2 de janeiro que “mudanças regulatórias frequentes” atribuídas a Gomes ampliaram incertezas no sistema. A conta normalmente publica conteúdos sobre celebridades; a postagem anterior tratava de uma conversa entre Nicole Bahls e Gil do Vigor e a seguinte abordava educação infantil.
Outra conta, @Festadafirma, publicou em 31 de dezembro texto do site Notjournal, que imita um portal de notícias, dizendo que a acareação entre o dono do Master, Daniel Vorcaro, e o presidente do BRB não apresentou “provas contundentes” contra o banco. A página é representada comercialmente pela agência Banca Digital, que afirmou ter recusado proposta de divulgação paga sobre o caso.
Imagem: redir.folha.com.br
O perfil Futrikei, com mais de 25 milhões de seguidores, reproduziu conteúdo semelhante no mesmo dia. Ele é agenciado pelo Grupo Farol, cujo portal Alfinetada também publicou, em 30 de dezembro, texto especulando sobre possível ida de Gomes para o BTG.
Relatório da Febraban identificou “volume atípico” de menções à entidade em dezembro e apura se há orquestração. As agências Banca Digital, Grupo Farol e Deubuzz administram ou representam parte dos perfis envolvidos. A reportagem encontrou quatro contas geridas pela Deubuzz que atacaram o ex-diretor do BC em 2 de janeiro. Nenhuma das três companhias respondeu aos questionamentos.
O jornal O Globo revelou que influenciadores foram procurados para publicar conteúdo favorável ao Banco Master dentro de um projeto identificado como “DV”, iniciais de Daniel Vorcaro. O vereador de Erechim (RS) Rony Gabriel (PL) afirmou ter recebido, em 20 de dezembro, oferta “com remuneração milionária” para participar da iniciativa, que foi recusada.
Procurados por meio da assessoria de imprensa, o Banco Master e Daniel Vorcaro não se manifestaram.