São Paulo – O economista Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central do Brasil e atual vice-chairman do Nubank, alerta que o aumento robusto da produtividade é a única saída para sustentar o crescimento econômico de longo prazo e garantir bem-estar às próximas gerações.
Campos Neto lembra que, desde a crise financeira de 2008, o crescimento econômico mundial tem perdido fôlego. Segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), mais da metade dessa desaceleração resulta da perda de dinamismo da produtividade.
Estudo do Banco Mundial mostra que cerca de 70% das economias avançadas e emergentes enfrentam o mesmo problema, com exceção notável dos Estados Unidos e da China. Dados do Fórum Econômico Mundial indicam que o avanço anual da produtividade total dos fatores (PTF) caiu de 1,6%, no início dos anos 2000, para 0,6% após 2008.
Nas economias avançadas, a PTF recuou para 0,4% ao ano; nos mercados emergentes, passou de mais de 2% para 0,6%. Desde 2020, países de baixa renda praticamente não registram ganhos de produtividade.
Para o economista, a queda da produtividade se soma ao envelhecimento populacional e à expansão do Estado, criando “uma transferência silenciosa de custos para as próximas gerações”. Ele critica a predominância de medidas focadas na demanda – como proteção ao emprego e aumento de transferências – que geram resultados de curto prazo, mas não fortalecem a capacidade produtiva.
No Brasil, Campos Neto considera o debate ainda mais urgente. Dados do Observatório da Produtividade da Fundação Getulio Vargas (FGV) indicam que a PTF nacional cresceu apenas 0,3% ao ano entre 1981 e 2019. O melhor desempenho ocorreu entre 2000 e 2010, com alta anual de 1,5%, mas o indicador ficou negativo de 2014 a 2019.
Imagem: redir.folha.com.br
Após a pandemia, a recuperação também é fraca: no terceiro trimestre de 2025, a produtividade por hora efetiva recuou 0,1%. O país enfrenta ainda dívida pública elevada, juros altos e compressão de gastos discricionários, cenário que limita políticas baseadas apenas em estímulos à demanda.
O ex-presidente do BC defende recolocar a produtividade no centro das discussões econômicas. Para ele, reformas do lado da oferta, que criem incentivos claros para investir, inovar e alocar recursos de forma eficiente, são essenciais. Embora não tragam retornos eleitorais imediatos, tais medidas seriam, segundo Campos Neto, as únicas capazes de assegurar crescimento duradouro, inclusão social e justiça intergeracional.
“Ignorar essa agenda pode parecer confortável no presente”, escreve o economista, “mas o custo recairá sobre o futuro”.