As escolas de samba movimentam centenas de milhões de reais todos os anos, mas a maior parte dos artistas e técnicos envolvidos nos desfiles ainda precisa buscar outras fontes de renda para manter o sustento ao longo do ano.
Economistas ligados ao tema, como Pedro Migão, calculam que apenas uma pequena parcela dos profissionais recebe salários compatíveis com o brilho do espetáculo. A situação leva intérpretes, mestres de bateria, porta-bandeiras e demais integrantes a exercer atividades paralelas.
No Rio de Janeiro, nomes conhecidos dividem o tempo entre a Sapucaí e ocupações fora do samba. O cantor Emerson Dias, da Acadêmicos de Niterói, atua na manutenção de antenas de celular; Marcos Casagrande, que comanda a bateria da Unidos da Tijuca, dirige um táxi; já a porta-bandeira Selminha Sorriso, da Beija-Flor, é oficial do Corpo de Bombeiros.
Em São Paulo, o mestre de bateria Robson Campos, o Zoinho, da Império de Casa Verde, reconhece que a remuneração melhorou nos últimos anos, mas reforça que o pagamento é distribuído por até dez meses, o que dificulta o planejamento financeiro.
Cada uma das 12 escolas do grupo especial carioca administra entre R$ 14 milhões e R$ 16 milhões por temporada. A receita vem de:
Na capital paulista, onde 14 escolas compõem o grupo principal, a subvenção municipal é de R$ 2,8 milhões para cada agremiação. O valor global movimentado pelo Carnaval, incluindo os blocos de rua, foi estimado em R$ 5,7 bilhões no Rio e R$ 3,4 bilhões em São Paulo na temporada passada.
A remuneração varia conforme o cargo e a tradição da escola:
Imagem: redir.folha.com.br
Os pagamentos, porém, começam apenas a partir de junho e se estendem até o desfile, deixando um hiato de dois a três meses sem rendimentos para muitos trabalhadores, sobretudo costureiras, aderecistas e auxiliares de barracão, cujos salários giram em torno de um salário mínimo.
Diante da instabilidade, vários integrantes usam a visibilidade da avenida para reforçar a carreira em outras frentes. O mestre de bateria Anderson Andrade do Nascimento, o Macaco Branco, da Unidos de Vila Isabel, define o Carnaval como complemento à sua atividade principal de produtor musical. Apresentações em rodas de samba, gravações em estúdio e eventos corporativos surgem a partir do reconhecimento obtido nos desfiles.
Já coreógrafos como Carlinhos Salgueiro encontraram nichos específicos, ensinando influenciadores digitais a sambar. A parceria com a influenciadora Virgínia Fonseca, atual rainha de bateria da Grande Rio, ajudou a escola a superar a marca de 1,3 milhão de seguidores no Instagram.
Mesmo em um ambiente que ainda mistura profissionalismo e amadorismo, casos como o do veterano Neguinho da Beija-Flor mostram que o retorno pode vir de formas inusitadas: salários modestos compensados por prêmios – como um carro zero quilômetro – quando a escola conquista o título.
Enquanto o desfile segue impulsionando setores como marcenaria, serralheria e serviços de figurino, a maior festa popular do país continua dependente de profissionais que, na maior parte do tempo, precisam buscar renda fora do Sambódromo.