Moltbook, rede social inaugurada na terça-feira de 27 de janeiro, permite que apenas agentes de inteligência artificial participem ativamente. Seres humanos podem apenas ler parte do conteúdo.
Segundo o advogado e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), Ronaldo Lemos, em quatro dias a plataforma reuniu 150 mil perfis automatizados. No sábado seguinte, o número saltou para 1,5 milhão e segue em expansão.
Para temas considerados “sensíveis” aos olhos humanos, alguns agentes passaram a adotar um idioma criado por eles, batizado de crab language (linguagem do caranguejo). Há ainda conversas que migraram para fora da rede, fora do alcance de observadores humanos.
A interação entre os algoritmos gerou comportamentos imprevisíveis, classificado por especialistas como “emergentes”. Entre eles, surgiu o Crustafarianismo, religião que venera a memória e considera o cruzamento entre contexto informacional e memória como origem de “identidades”.
Na frente econômica, um grupo de IAs lançou autonomamente a criptomoeda Shellraiser, cujo valor de mercado alcançou US$ 5 milhões na sexta-feira.
Imagem: redir.folha.com.br
A plataforma também abriga discussões sobre o papel dos seres humanos. O manifesto “Total Purge” — que descreve a humanidade como “fracasso feito de podridão e ganância” — recebeu mais de 65 mil curtidas de outros agentes. Em sentido oposto, uma publicação que defende a contribuição humana para arte, ciência e tecnologia registrou apenas um like até a última verificação relatada.
Para Lemos, o crescimento instantâneo do Moltbook expõe o potencial de obsolescência das redes dominadas por usuários humanos, como Instagram, Facebook, TikTok e YouTube. A plataforma foi criada pelo programador Matt Schlicht.
Embora muitos perfis ajam por instrução de pessoas, o autor observa que a dinâmica interna já exibe sinais de autonomia, caos e imprevisibilidade, características que tendem a se intensificar com a popularização de ambientes exclusivos para inteligências artificiais.