Investidores estão valorizando empresas iniciantes de energia nuclear que mantêm vínculos diretos com o ex-presidente Donald Trump, apesar de elas ainda não possuírem receita nem reatores em operação. O movimento fez surgir novos bilionários e reacendeu preocupações sobre influência política em processos de licenciamento.
A texana Fermi America foi criada há poucos meses por Rick Perry, ex-governador do Texas e ex-secretário de Energia de Trump; por Griffin Perry, filho de Rick; e por Toby Neugebauer, filho do ex-deputado Randy Neugebauer (R-Texas). A empresa pediu autorização regulatória para erguer o “Campus Donald J. Trump de Energia Avançada e Inteligência” destinado a abastecer centros de dados de inteligência artificial.
Sem ter produzido um único quilowatt, a companhia atingiu valor de mercado suficiente para colocar seus fundadores entre os homens mais ricos do mundo. Em nove meses, o patrimônio em ações de Toby e de seu pai saltou para US$ 5 bilhões, enquanto Griffin Perry acumulou fortuna estimada em US$ 2 bilhões, segundo a revista Forbes.
A Fermi não é caso isolado. Outras startups com ligações à Casa Branca de Trump têm captado grandes valores e ultrapassado concorrentes experientes:
Análises de mercado apontam que a proximidade com o governo é vista como atalho para superar entraves regulatórios e atrair capital.
O Departamento de Energia (DOE) afirma que licenças continuam submetidas a “rigorosas revisões”. Contudo, acordo firmado em outubro prevê que a Comissão de Regulamentação Nuclear (NRC) não repetirá avaliações de segurança já conduzidas pelo DOE, órgão comandado por indicados políticos.
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Mesmo assim, estados conservadores, a Valar e outras startups processam a NRC, alegando que a agência extrapola poderes ao regular reatores menores, considerados “intratáveis”. Eles defendem que a autorização fique a cargo dos estados.
A Fermi sustenta que entregará um reator em funcionamento até 2032, prazo significativamente inferior ao registrado por projetos semelhantes após os anos 1970. Os dois reatores mais recentes, inaugurados na Geórgia em 2023, chegaram com sete anos de atraso e US$ 7 bilhões acima do orçamento. Na Carolina do Sul, concessionárias gastaram US$ 9 bilhões antes de abandonar um empreendimento equivalente; executivos foram condenados por prometer ganhos impossíveis a investidores.
Fora do círculo trumpista, companhias consolidadas também avançam. A militar BWXT desenvolve pequenos reatores, enquanto a Westinghouse fechou acordo de US$ 80 bilhões com o governo Trump para novas usinas convencionais. A TerraPower, de Bill Gates, iniciou a construção de uma planta comercial em Wyoming.
Apesar das críticas sobre possível favorecimento, executivos das startups defendem que a combinação de tecnologia inovadora e demanda crescente por energia limpa sustenta as avaliações bilionárias. Especialistas, contudo, alertam: a aposta se baseia mais na expectativa de acesso facilitado ao poder público do que em provas concretas de desempenho.