A intensificação do confronto envolvendo o Irã levou investidores a reforçar posições em ativos considerados seguros, como títulos do Tesouro dos Estados Unidos, ouro e franco suíço. Especialistas ouvidos ao longo do fim de semana antecipam que a abertura dos mercados de energia nesta segunda-feira (2) será o primeiro grande teste de humor, com expectativa de forte volatilidade em moedas e petróleo logo nas negociações da Ásia.
Primeiro porto seguro, depois perguntas
John Briggs, chefe de estratégia de juros nos EUA da Natixis, resume a postura atual como “porto seguro primeiro, perguntas depois”. Para ele, a escala dos ataques e da retaliação iraniana superou as previsões do mercado, o que tende a prolongar a queda dos rendimentos dos Treasuries verificada na sexta-feira (28), quando os retornos de curto prazo atingiram o menor nível desde 2022.
Estratégias de risco em xeque
Ed Al-Hussainy, da Columbia Threadneedle, aponta que as altas avaliações em ações e crédito globais facilitam movimentos de redução de risco. Segundo o analista, o mercado já vinha pressionado por incertezas ligadas a tarifas nos EUA, avanço da inteligência artificial e fragilidade no crédito privado.
Estreito de Ormuz no centro das atenções
Cerca de 25% do petróleo transportado por via marítima passa pelo Estreito de Ormuz. Dave Mazza, da Roundhill Financial, observa o fluxo de navios na região: se o tráfego permanecer livre, as bolsas podem absorver o choque; se for interrompido, “todos os cenários mudam”.
Reações imediatas
No domingo (1º), o índice Tadawul All Share, da Arábia Saudita, chegou a recuar quase 5% na abertura, mas reduziu parte das perdas ao longo do dia. No mercado de criptomoedas, o Bitcoin rondava US$ 68 mil, enquanto opções de venda somavam US$ 1,87 bilhão no strike de US$ 60 mil na plataforma Deribit.
Petróleo, bolsas e recomendações
Na sexta-feira (28), o Brent encerrou no maior patamar desde julho; já o S&P 500 caiu 0,4%, acumulando a pior perda mensal desde março. Analistas do Barclays desaconselharam compras rápidas na queda, destacando o risco de prolongamento do conflito e possíveis interrupções em Ormuz.
Kevin Gordon (Charles Schwab) – Vê possibilidade de choque inflacionário de curto prazo caso o petróleo suba de forma sustentada, mas ressalta que o efeito pode ser limitado se crescimento e lucros não forem afetados.
Imagem: infomoney.com.br
Vincent Mortier (Amundi) – Estima alta de 5% a 10% no preço do petróleo, queda dos rendimentos dos Treasuries, valorização do ouro e recuo moderado das ações (aproximadamente 1%).
Francis Tan (Indosuez Wealth Management) – Espera abertura em queda na Ásia, Europa e EUA, com impacto direto em companhias aéreas e turismo devido a eventuais fechamentos de espaço aéreo. Se a crise durar meses, projeta petróleo acima de US$ 100 e pressão sobre ações de tecnologia.
Gregory Faranello (Amerivet Securities) – Acredita que a operação militar possa durar semanas. Para ele, Treasuries ainda têm espaço para quedas de juros se a demanda por proteção aumentar, mas a trajetória final depende do Federal Reserve e da economia dos EUA.
Frank Monkam (Buffalo Bayou Commodities) – Classifica o ataque como catalisador quase perfeito para correção em um mercado já frágil. Prevê aumento da volatilidade, mas lembra que choques geopolíticos costumam gerar recuos pontuais.
Rajeev de Mello (Gama Asset Management) – Enfatiza que uma escalada prolongada deve atingir países emergentes via preços de energia, podendo piorar contas externas e pressionar bancos centrais.
Joe Gilbert (Integrity Asset Management) – Vê possível liderança de energia, metais, real estate, utilities e defesa; por outro lado, consumo discricionário, companhias aéreas e varejo tendem a sofrer.
Stephan Kemper (BNP Paribas Wealth Management) – Prevê queda substancial das bolsas no curto prazo se o petróleo permanecer caro, o que dificultaria cortes de juros pelo Fed. Caso o impacto seja limitado, enxergaria recuos mais fortes como oportunidade de compra.
Madison Faller e Erik Wytenus (JPMorgan Private Bank) – Alertam que mesmo a possibilidade de interrupção no fornecimento de energia pode alterar custos de produção, preços ao consumidor e expectativas de política monetária. Mantêm visão construtiva para o ano, mas recomendam portfólios mais resilientes, com ouro e setores estratégicos.
Maxence Visseau (Arkevium) – Projeta recuo inicial de 5 a 10 pontos-base nos yields dos Treasuries. Se o petróleo avançar para US$ 80-90 em caso de bloqueio em Ormuz, a curva de juros pode voltar a inclinar, com o mercado retirando cortes do Fed do preço e abrindo breakevens de inflação.
Com tantos vetores de incerteza, os agentes financeiros adotam o lema de preservação de capital enquanto aguardam a abertura dos mercados para calibrar as próximas decisões.