Trump proclama fim da inflação em série de discursos, mas alta de preços ainda preocupa eleitores nos EUA

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Washington – Ao longo de cinco pronunciamentos sobre economia realizados desde dezembro, o presidente Donald Trump afirmou quase 20 vezes que a inflação “acabou” ou está “muito baixa” e declarou em quase 30 ocasiões que os preços estão em queda. A avaliação contrasta com os dados oficiais, que apontam inflação anual próxima de 3% e itens de consumo básico mais caros do que há um ano.

Discursos e inconsistências

Levantamento da Reuters analisou cerca de cinco horas de falas do presidente. Nesse período, Trump destinou aproximadamente metade do tempo a assuntos alheios à economia, como imigração, política externa e ataques a adversários. Quando abordou o custo de vida, apresentou-se como responsável por resolver o problema, embora estudos mostrem que os consumidores continuam sentindo o peso no bolso.

Exemplos citados pelo levantamento ilustram a distância entre discurso e realidade: o quilo da carne moída encareceu 18% desde janeiro de 2025, início do atual mandato, e o café moído subiu 29% no mesmo intervalo.

Preocupação entre estrategistas republicanos

Líderes do Partido Republicano veem risco de perda de credibilidade às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para novembro. “Ele não pode sustentar afirmações comprovadamente falsas sem prejudicar candidatos em disputas apertadas”, afirmou o estrategista Rob Godfrey.

Uma fonte próxima à Casa Branca disse, sob anonimato, que Trump precisa tratar mais diretamente de “acessibilidade” – termo que ele chegou a classificar como “farsa democrata” antes de abandoná-lo após reação negativa em dezembro.

Digressões frequentes

Quando se afasta do tema econômico, o tópico mais recorrente é a imigração ilegal, foco de 30 a 40 minutos dos discursos analisados. Em Minnesota, Trump ironizou a origem somali de eleitores e da deputada Ilhan Omar, além de chamar a Somália de “nem mesmo um país”. Outras divagações incluíram críticas à OTAN, menções à Groenlândia e acusações de fraude na eleição de 2020.

Números da economia

Apesar da desaceleração da inflação – de 3% para 2,7% entre janeiro e dezembro de 2025 –, economistas lembram que preços mais lentos não significam preços menores. No mesmo período, o custo dos alimentos avançou mais de 3%, enquanto salários médios cresceram 1,1%. A taxa de desemprego subiu de 4% para 4,4%.

Há exceções: o preço dos ovos caiu 21% em dezembro ante igual mês do ano anterior, e a gasolina ficou 4% mais barata desde janeiro passado. Ainda assim, o conjunto da cesta de supermercado ficou mais caro.

Propostas e ceticismo

Nos discursos, Trump cita cortes de impostos que entraram em vigor no mês passado, fim de tributos sobre gorjetas e horas extras, plano para reduzir juros de hipotecas, medidas para baixar o custo da habitação e acordos com seguradoras para baratear medicamentos. Economistas ouvidos pela Reuters avaliam que poucas dessas iniciativas terão efeito perceptível sobre o custo de vida antes de novembro. Uma delas – limitar juros de cartão de crédito a 10% por um ano – pode até dificultar o acesso a crédito para famílias de menor renda.

Percepção pública

Pesquisa Reuters/Ipsos de 25 de janeiro indica que 35% dos norte-americanos aprovam a condução da economia pelo presidente, ligeira alta em relação aos 33% de dezembro, mas bem abaixo dos 42% registrados no início do mandato.

Aliados do governo esperam usar o discurso do Estado da União, marcado para 24 de fevereiro, como ponto de partida para uma agenda de viagens internas que reforce a mensagem de “acessibilidade”. “Os eleitores já veem um contraste claro e o melhor ainda está por vir”, disse Mike Marinella, porta-voz do Comitê Nacional Republicano do Congresso.

Até lá, a distância entre a narrativa de preços em queda e as contas no supermercado seguirá no centro do debate eleitoral nos Estados Unidos.

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