Estrasburgo, Londres e Davos – A União Europeia enfrenta a perspectiva de um confronto comercial direto com os Estados Unidos caso o presidente Donald Trump cumpra a ameaça de elevar tarifas a partir de 1º de fevereiro sobre oito países europeus, entre eles Dinamarca, Alemanha e Reino Unido.
Analistas definem a disputa como um teste de “dominância de escalada”: a capacidade de impor custos ao adversário de forma mais rápida e intensa. Trump já demonstrou disposição de aumentar impostos de importação de maneira brusca via redes sociais, chegando a anunciar elevações sucessivas em intervalos de minutos quando percebe reação do outro lado.
Enquanto o governo norte-americano age por meio de ordens executivas – no primeiro ano de seu segundo mandato Trump assinou mais decretos do que em toda a gestão anterior –, Bruxelas depende de negociações entre 27 Estados-membros. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, ironizou esse processo, chamando-o de “temido grupo de trabalho europeu”.
Agathe Demarais, do Conselho Europeu de Relações Exteriores, observa que, se necessário, Trump “chegaria a tarifas de 1.000% sem hesitar”, ao passo que a UE é “pragmática, burocrática e de cabeça fria”.
Reunidos no domingo em Bruxelas, representantes dos países do bloco ainda buscavam consenso. França e Alemanha, por exemplo, negociavam uma posição comum antes da cúpula de emergência. Governos como Hungria e Eslováquia demonstram receio em adotar medidas mais duras.
Mesmo com acordo político, a ativação do Instrumento Anticoerção (ACI) – apelidado de “bazuca comercial” – exigiria investigação formal e múltiplas votações, processo que pode levar meses. Diplomatas, portanto, não esperam respostas antes do prazo de 1º de fevereiro.
Na ausência de ferramentas rápidas, a UE prepara tarifas de até 30% sobre 93 bilhões de euros em importações norte-americanas, medida suspensa pelo acordo de Turnberry e que voltaria a valer se os governos não prorrogarem o pacto. Levantamento do Financial Times indica que a retaliação poderia abranger mais de 100 bilhões de euros em vendas dos EUA, afetando principalmente aviação, máquinas e veículos.
Esse movimento rasgaria o próprio acordo de Turnberry, pelo qual o bloco aceitara tarifas maiores sobre seus produtos em troca de reduções sobre bens industriais dos EUA, e provavelmente provocaria nova reação de Washington.
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Estudos do Instituto Kiel mostram que a maior parte do custo tarifário recai sobre consumidores americanos, argumento usado por defensores de uma postura firme. A UE também analisa ações em serviços, área na qual importa mais dos EUA do que exporta, o que exporia empresas de tecnologia e finanças norte-americanas. A dependência europeia de provedores de computação em nuvem, entretanto, torna essa via arriscada.
Alternativas consideradas incluem:
Alexander Stubb, presidente da Finlândia, afirma que “a Europa tem muitas cartas”, lembrando que o bloco também detém parcela relevante da dívida pública dos EUA.
Para Georg Riekeles, do Centro de Política Europeia, a chave da “dominância de escalada” está na unidade e na determinação. Já Agathe Demarais argumenta que a demora europeia pode jogar a favor do bloco, dando espaço para que opinião pública, tribunais e mercados norte-americanos limitem a margem de manobra de Trump.
Nas últimas semanas, ações nos EUA e o dólar recuaram enquanto o presidente mantinha o discurso de confronto. O FMI projeta crescimento modesto para a zona do euro em 2026, mas economistas alertam que um choque tarifário pode ameaçar essa estimativa.
Mesmo assim, entidades empresariais europeias sinalizam apoio a uma resposta mais firme caso o diálogo com Washington fracasse. O desfecho dependerá da capacidade de Bruxelas de manter coesão interna e convencer eleitores de que enfrentar os EUA compensa os potenciais custos econômicos.