Duas diretorias estratégicas do Banco Central (BC) – Política Econômica e Organização do Sistema Financeiro – permanecem vagas desde o início de 2026. Os mandatos de Diogo Abry Guillén e Renato Dias de Brito Gomes terminaram no fim de 2025 e, seis meses depois, o governo federal ainda não indicou substitutos.
A indefinição provoca especulações, sobretudo em torno do comando da área de Política Econômica. Na semana passada, circulou o nome do economista Guilherme Mello, ligado ao PT e ao atual governo. Caso a escolha se confirme, agentes de mercado avaliam que a autoridade monetária poderia adotar postura mais permissiva em relação aos juros, priorizando cortes mesmo diante de riscos inflacionários.
A discussão remete ao episódio de 2024, quando Gabriel Galípolo assumiu a presidência do BC no lugar de Roberto Campos Neto. À época, parte do mercado e da base governista esperava uma guinada para juros menores. O resultado, porém, foi o oposto: para reforçar a credibilidade diante de dúvidas sobre o controle da inflação, o novo comando elevou a Selic a 15% ao ano.
Segundo avaliação do economista Bernardo Guimarães, se Campos Neto tivesse permanecido, a taxa provavelmente teria ficado mais baixa, pois a autoridade já contava com confiança consolidada. O BC de Galípolo, sem o mesmo capital reputacional, recorreu a juros mais altos para ancorar expectativas.
Com a inflação convergindo para a meta e a credibilidade restabelecida, o cenário atual aponta para início do ciclo de cortes na Selic. Nesse contexto, analistas temem que a escolha de um diretor identificado com a agenda de redução acelerada de juros possa reacender dúvidas sobre o compromisso do BC com a estabilidade de preços, travando ou retardando o processo.
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Guimarães observa que juros elevados impactam negativamente as contas públicas, aumentam a desigualdade de renda e desestimulam investimentos. Ainda assim, alerta que uma indicação orientada unicamente a baixar a taxa básica pode ter efeito contrário. A elevação da inflação esperada forçaria a autoridade monetária a segurar a Selic por mais tempo.
Para evitar novo choque de incerteza, o economista defende a escolha de quadros técnicos já atuantes no Banco Central, que conciliem experiência em política monetária com aceitação tanto do mercado quanto da ala política do governo.