A recuperação judicial do Grupo Pão de Açúcar (GPA) anunciada na terça-feira (data não informada) e o pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, divulgado nesta quarta-feira, travam dívidas de R$ 4,5 bilhões e R$ 65,2 bilhões, respectivamente, e abrem um período de 90 dias sem pagamentos. O movimento afeta investidores de ações, de títulos de crédito – como debêntures, CRIs e CRAs – e cotistas de fundos que carregam esses papéis.
No caso da Raízen, cerca de R$ 900 milhões de um CRA que vence em 16 de janeiro ficarão sem liquidação no prazo original. Também foram suspensos os juros agendados para 15 de janeiro das debêntures RAIZ13, RAIZ23, RESA17 e RESA27. No mercado secundário, uma debênture com vencimento em 2030 chegou a ser negociada com deságio de 50 %.
Segundo dados da companhia, há R$ 6,4 bilhões em CRAs estruturados pela True Securitizadora – hoje controlada pela Opea – e outros R$ 900 milhões emitidos posteriormente. Além disso, circulam R$ 6,3 bilhões em debêntures incentivadas distribuídas pela Pentágono DTVM, boa parte em mãos de pessoas físicas.
Fundos de crédito ou renda fixa expostos a esses papéis terão de reavaliar as cotas conforme a nova precificação no mercado secundário. Ações também já refletem o estresse: tanto RAIZ4 quanto PCAR3 acumulam queda de 35 % no ano.
Entre os fundos imobiliários, os de “papel” que detêm CRIs do GPA podem sentir impacto. Já os fundos de “tijolo” que alugam imóveis para a rede não devem sofrer no curto prazo, pois a varejista informou que manterá o pagamento de aluguéis.
Para o analista Otávio Faria, da Eleven Financial, a Raízen tende a oferecer recompra das dívidas com deságio de 40 % ou conversão em participação acionária. No GPA, cuja deterioração se arrasta há quatro anos, a renegociação pode chegar a 80 % de desconto, segundo ele.
Faria destaca a diferença entre títulos com e sem garantias reais. CRIs e CRAs lastreados em imóveis – muitos com alienação fiduciária no GPA – ficam fora dos efeitos da recuperação, conforme o artigo 49 da Lei de Falências. Já debêntures sem garantia da Raízen entram integralmente na negociação com credores.
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Nas mesas de renda fixa estruturada, papéis do GPA foram ofertados a 20 % do valor de face, enquanto títulos da Raízen circulavam perto de 40 %. Gestores de fundos high grade, com mandato mais conservador, podem optar por vender a posições com perda imediata para evitar anos de litígio.
Para investidores com mais apetite a risco e conhecimento jurídico, manter ou comprar os ativos a preços depreciados pode transformar o investimento em estratégia de distressed assets. Contudo, o analista Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, adverte que o evento eleva a incerteza sobre pagamento de juros e principal e exige provisões maiores nos fundos.
O CEO da MA7 Negócios, André Matos, observa que os pedidos de recuperação colocam as empresas no patamar de “reestruturação”, aumentando spreads, encurtando prazos e tornando covenants mais rígidos para novos emissores. Investidores passam a exigir garantias adicionais e a preferir companhias com caixa robusto e menor alavancagem.
Enquanto isso, os próximos 90 dias serão decisivos para a renegociação com credores e definição de condições de pagamento. Até lá, os preços dos títulos devem continuar voláteis, e gestores reavaliam o risco das carteiras diante do novo cenário.