Em apenas quatro semanas de conflito no Oriente Médio, investidores estrangeiros reforçaram a exposição à Bolsa brasileira, enquanto gestores domésticos preferiram aumentar o caixa. O saldo das aplicações externas passou de R$ 35 bilhões para R$ 48 bilhões no período, incremento de R$ 13 bilhões mesmo com o ambiente geopolítico conturbado.
O movimento foi tema do programa Aftermarket, do Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo e que reuniu Christian Keleti, CEO da Alpha Key; Leonardo Linhares, responsável pela área de ações da SPX Capital; e Andrew Reider, sócio e gestor do WHG Long Biased.
Segundo Keleti, os principais vendedores nesse intervalo foram os fundos de gestão independente no Brasil. “A indústria local tem pouco mais de cem bilhões de reais em ações. Dos 35 a 40 bilhões vendidos, fomos nós”, afirmou. O executivo teme que, caso o cenário geopolítico melhore, o investidor estrangeiro permaneça comprador e falte papel disponível, já que os gestores locais teriam esgotado a capacidade de venda.
Para Keleti, a redução de posição dos fundos domésticos foi “disciplinada” e amparada pelos fundamentos. Ele classificou o último trimestre como o pior em resultados corporativos dos últimos anos, citando:
Ele também observou que bancos passaram a negociar acima dos múltiplos históricos, distorção atribuída ao fluxo estrangeiro.
Imagem: infomoney.com.br
Leonardo Linhares explicou a diferença de percepção entre os dois públicos. “O investidor local é muito mais sensível à discussão de política monetária”, disse. Enquanto gestores brasileiros comparam o retorno das ações aos títulos públicos indexados à inflação (NTNB) e veem prêmios comprimidos, estrangeiros chegam ao país sem familiaridade com esse parâmetro. Collazo relatou ter precisado explicar o que é uma NTNB a um gestor internacional responsável por US$ 5 bilhões.
Com os estrangeiros mantendo o apetite e a liquidez dos fundos locais reduzida, gestores alertam que o investidor doméstico pode ficar de fora de uma eventual retomada de alta na Bolsa.